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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

PARA LONGE

Eu tive que voar para longe
Procurar um céu que fosse anil.
Supostamente sereno, feito monge,
Melancólico, como as chuvas de Abril.

O peso do mundo em asas cansadas,
O sol que não mais aquece.
As plumas, antes prateadas,
Agora são negras, da dor que me veste.

Sempre distante, sempre sozinho.
A alma em contraste com este lugar.
Perdido e errante nesses caminhos
Onde esperança não há.

O vento levou todos os sonhos
De mim, também voei para longe.
E depois de chorar tanto
Cessou as lágrimas, secou a fonte.

domingo, 20 de dezembro de 2015

ESTRELA

Quando você me escolheu Eu logo percebi
Que fazia tempo que Eu já lhe amava.
Eu estive sempre só, e foi aqui,
Dentro de mim, que este amor já lhe esperava;

Eu olhava para o céu lhe procurando
E todas as estrelas se apagavam.
Eu estive sempre só, me petrificando,
Porque suas idas e vindas não sessavam;

Eu, então, cruzei distâncias, lembra?
Eu não conseguia ficar assim, tão longe.
Eu estive sempre só, uma senda
Tornando-me, veja só, quase um monge;

Hoje, Eu estou aqui, muito embora
Eu esteja sempre disperso, sempre a esmo.
Eu estive sempre só, sem escora,
Procurando, sem êxito, por mim mesmo;

Eu fui sempre assim, arredio,
Mas não quero ser a razão de suas lágrimas.
É que eu estive sempre só, e meus brios
Compartilhados apenas à poucas páginas;

Eu amo você, amo acordar ao seu lado.
Seja minha âncora quando Eu ficar disperso.
Eu estive sempre só, mas é passado,
Você é a estrela que brilha em meu universo.

À PORTA

O que me falta para ser feliz,
Por favor, deus, me diz?
Eu ando pelas ruas, vazio,
Braços cruzados, sentindo frio;
A mente fechada – que ironia!
Quando aberta, sinto agonia.
Não dá mais para ser normal,
Cruzei os limites do bem e do mal.
Nem sei, ao menos, se ainda me quer.
Sou para ti, talvez, demônio qualquer.
Sou resultado dos dados que a vida lança.
Abandonei na porta minha esperança.

LUTO

Questiono-me varias vezes
O homem que me tornei.
A mente vazia por meses
E os gostos que eu tinha e mudei;

Tenho andado insatisfeito,
Insensível, com palavras amargas.
Ausente em meu próprio leito
Por longos intervalos na madrugada;

Ando pela casa, invisível.
Eu sei que este não sou eu!
O que antes parecia indivisível
Além de partir também morreu...

NOITE

A densa Noite não me esqueceu!
Em horas de insônia ela grita meu nome.
Com um manto, um caduceu,
E nas taças, sangue para matar a fome;

Saímos nós dois pelas ruas
Embriagados da morte ao nosso redor.
Ao canto de musas seminuas
Banhados de prazer e muito suor;

A madrugada bela, quase infinita,
Moldurando uma vontade tão homérica.
De asas abertas, destemidas,
Sobrevoando mares e Américas;

Amante da Noite, filho das Trevas,
Qual termo melhor me definiria?
Minh' alma ainda se conserva
Como antes de Deus haver criado o dia.

UMA ESTAÇÃO QUALQUER

O vento frio rasga minha pele,
A armadura não é tão forte assim.
A ira d’ uma peste,
Que me persegue,
E não traz o meu fim.

Cruzo desertos, montanhas e o próprio mar,
Os caminhos que, às vezes, me cegam.
A loucura febril a queimar
E o vazio, seu par,
Que Deus e o Diabo não me negam.

Não há flores, nem pássaros, nem céu!
A Terra toda virada ao avesso!
E num imenso fogaréu
O escarcéu
Dos meus Deuses feitos de gesso.

Aqui é mesmo o Inferno
E apesar de ferido a morte não me quer.
O sofrimento eterno,
Assim como o inverno,
É uma estação qualquer.

ÉBRIO EM NOITES SÓBRIAS

Eu canto as mágoas que um dia eu tive
Na embriaguez que o vinho me traz
Quantas vezes irado, me contive
Com os olhos ardendo em furor tenaz;

A lua foi testemunha quando eu
Por várias vezes tentei me redimir
Mas minhas preces, o meu Deus
Não soube, não quis me ouvir;

Macilento, vaguei pelas sombras,
A bebida minha única companheira.
A vida errante já não me assombra

Ao contrário, hoje me pranteia!
E quando a tristeza me toma
Deixo-me cair em suas teias.

AGOSTO

Ultimamente não tenho tido muitos sonhos
Durante a noite já não fico mais em prantos.
Ainda assim, às vezes, me assombro
Quando minha alma perde-se pelos cantos;

No meu peito habitava uma fera
E parece fazer tempo que ela me deixou.
Em seu lugar uma imensa cratera
Que pensamento algum jamais sondou;

A vontade de ficar só ainda existe
Apesar de algo em mim, ter mudado.
Por dentro ainda sou muito triste
Na vida nada tem me confortado.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

CADENTE

Quando o sol escondeu-se no horizonte
Uma voz triste recitava odes antigas.
Cruzando a noite, desenhando uma ponte.
Uma estrela cai - morre uma amiga.

Será este o fim de todos os astros:
Precipitarem-se para a escuridão?
Cadê o arco-íris que brilhava no átrio?
Abandonou-nos após nossa desrazão.

SANSARA



Às vezes, o mundo se avessa
E pareço perder-me em nostalgia
A inexperiência rota me atravessa
Deixa minha mente imersa em letargia;

O que aconteceu com a austeridade
cognitiva que adquiri em estações passadas?
Meu coração, na fragilidade,
Se desmancha, e eu não sinto mais nada;

Bruto, a circunstância me molda
Embora Deus tenha me feito terno.
A vida com lâminas me poda;

Protegido deveria ficar meu Eu interno
Mas ainda preso nessas cordas
O Sansara me brinda com mais um inverno.

NIRVANA





Krishna trouxe-me paz ao coração
Enxerguei um mundo melhor e fiquei tranquilo
Distanciei-me dos viés da ação e não-ação
E não precisei fixar-me em nenhum trilho;

Cristo aconselhou-me em silêncio
Como Sidarta, tocou-me com sua doutrina
Não mais preocupo-me com acúmulos e dispêndios
O vento que derruba casas, também ondeia crinas;

Encontrei a Razão no mundo e em mim
Assim fiquei contento, e meu espírito em paz
Toda a minha vida levou-me a este fim:

Seguir o meu caminho, sem olhar para traz
A minha mente condiz
Com o que a alma quer, e o corpo faz.