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quinta-feira, 30 de maio de 2019

Perturbação

Ao longe um navio pairava
Como suspenso em pleno ar.
A visão me encantava
Tudo perfeito: o céu, a terra e o mar.

E tal como num sonho
Tudo mudou, assim de repente!
Tremores e um vento medonho
Nos sacudiu até mesmo a mente.

Soldados armados surgiram do nada
abatidos por homens de semblante cruel.
A nau pelo fogo tragada
Fumaça, agora, cobria todo o céu.

O chão já transbordado de morte
Nós encurralados, e não havia como fugir
Sem Deus, sem chances, sem sorte
Não havia esperanças a nos iludir.

E da mesma forma como tudo começou
A legião do mal, enfim,  se esvaiu
Tal como num sonho tudo acalmou
Um sonho, sim! E dele acordo ainda febril!

Ignotas Trevas

Tudo aconteceu de repente,
como um grito de bebê na noite.
O urro do Monstro balançava o chão.
E como, na alma, um açoite
desanuviava minhã razão.

O monstro era horrendo!
Ameaçava minha vida, o meu tudo!
Minha prole chorava de pavor!
Tudo ao redor ficou mudo
enquanto eu enchia-me de furor.

Saltei por sobre o monstro,
suas garras rasgaram o meu busto.
O sangue vertia e inundava todo o chão.
Eu me ergui ainda mais bruto,
Morrer não seria uma opção!

Ataquei a fera em igual selvageria:
Eu a lacerava de forma tenaz.
Nossos urros eram trovões e terremotos!
O mundo todo se desfaz
e, de repente, desperto do sonho remoto...

A fúria desesperada me acompanhava.
Em transe continuei no mundo real.
Para onde olhava, ignotas trevas.
O corpo sem alma, só o vazio, afinal,
que ainda me escorre pelas arestas...

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

NOITE INQUIETA


Certa noite um sonho tenebroso
Fez-me refém durante o sono:
Foi numa noite fria e chuvosa
No fim do outono;

Eu me encontrava numa caverna
Onde havia extensa escadaria.
Pus-me a descer, sem medo,
Apesar daquela escuridão sombria;

A cada passo que eu dava
Sentia tremer aquele chão.
De repente ouço uivos
De algum soturno cão;

Não sei se foi pelo uivo,
Mas eu estava, agora, aflito!
Minha mente esvaneceu-se
Eu não venceria este conflito;

O cão surge em minha frente,
O chão abre-se aos meus pés!
A sanidade agora ausente
Apenas pavor em minha tez;

O cão gigante, pavoroso,
Pressionava-me ante a cratera.
Havia três cabeças em seu pescoço
Era negro como uma pantera;

Então vi, montado em seu dorso,
Uma figura esquálida!
Era só trapo e osso,
Numa pele seca e pálida;

A figura esdrúxula gritou:
“Acalma-te, alma ainda terrena!”
Da Fera ele saltou
A imagem era ainda mais horrenda;

A cabeça calva, olhos fundos,
A carne há tempos apodrecida.
Um Demônio de outro mundo
Tomando minha vida!

Ao se aproximar de mim
Seu odor me fez vomitar.
As forças fugiam, era meu fim,
Ninguém viria me salvar;

“O que fazes tão longe de casa?”
“O que buscas aqui nos Infernos?”
“Onde estão tuas asas?”
“Responda, filho do Eterno!”

_Não tenho asas, não sou anjo.
Sou apenas um homem perdido!
Não me adentrei neste antro
Eu fui trazido!

“Agora entendo o teu destino”
“Tal como o que me aconteceu”
“O vazio no peito desde menino”
“As costas viradas para Deus.”

“Agora este é o meu castigo:”
“Habitar o mundo que assombra”
“Tenebroso Reino do Holocausto.”
“Vá embora, meu amigo.”
“E não te esqueça desta sombra”
“que um dia chamou-se Fausto!”

UM SONHO

Todas as noites o mesmo pesadelo:
Sob um suposto céu plácido
Meus braços queimam em ácido
Estarrecendo-me com um medo
Que me sobe dos pés aos cabelos;

Vejo no ar horrendas criaturas
Armadas de ferrões e asas
Que, revestidas em brasa,
Ao menor toque me desfigura,
Abrindo-me uma ferida - sem cura;

Meus gritos de desespero são abafados
O ar, tão denso, não entra no peito
Caio por terra, contrafeito,
A esperança agora é um fardo,
Que mutila a alma dos fracassados;

A sede de sangue das feras
Continua insaciável, ininterrupta,
Enquanto uma força ainda mais bruta,
Pelos antigos chamada Quimera
Cuspia fogo e enxofre sobre a terra;

Tentávamos nos esconder, em vão,
Sob o solo, nos enterrando,
Cravando os dedos já sangrando
Na terra dura, seca e sem compaixão,
Cavando o próprio túmulo, sem caixão;

Da ponta dos dedos aos ombros
O ácido percorre estranhamente
Veios de queimaduras ardentes
Que, tal como um assombro,
Dão-me a aparência de um monstro;

sábado, 31 de março de 2012

SEM SAÍDA

De Cícero Silveira

“Oh! Vós que entrais, abandonai toda a esperança!”
_Dante Alighieri

Certa noite, cansado e de pálpebras terrivelmente pesadas, caí num sono profundo, que em aparência lembrava a morte não fosse o fato de ainda respirar. O caso é que, não sei se por causa da exaustão, me vi adentrar num mundo fantasioso de devaneios. Não mais me encontrava em minha casa. Eu havia cruzado a fronteira do tempo e do espaço e estava agora numa realidade incompreensível para minha razão. Porém este lugar, este estado mental, levou o meu desgaste físico-psicológico para além dos limites suportáveis. Eu vivenciava o mais expressivo pesadelo de minha vida inerte. Soberbamente aterrorizavam o tempo e os muros titânicos que me cercavam até alturas infinitas. Em um desses muros havia um gigantesco relógio, velho e parado. Ver seus ponteiros inflexíveis era uma tortura para mim. Eu senti a loucura roçar nos meus pensamentos e como se fosse um animal acuado por terríveis feras procurei uma brecha por onde fugir. Ao passar por uma porta não encontrei o céu que conhecia, aliás, não encontrei céu algum! As paredes sufocantes ainda existiam. O desespero já tomava conta de minha alma e preces angustiadas jorravam de meus lábios, suplicando a Deus que me despertasse os sentidos. Eu corri por todo esse labirinto e sua forma era como a de um círculo, pois eu voltava sempre ao mesmo lugar. O chão deste lugar era coberto por lixo que exalava cheiros horríveis. Porém, foi neste chão podre que eu caí de joelhos, entregue ao acaso.
Como nunca antes, eu desejei morrer, porque eu sabia que a morte me traria de volta a vida (?), e com um pedaço de vidro apanhado do lixo talhei um profundo corte no meu pulso e antes mesmo do sangue jorrar eu senti uma dor terrível, que me fez perceber que talvez não fosse um sonho a final. Porém, sem pensar, deslizei o vidro no outro braço, e enquanto o chão tingia-se de vermelho-rubro os pensamentos corriam desordenados para então tudo tornar-se turvo. Até que, finalmente, trevas fosse minha única visão.
Não sei precisar quanto tempo fiquei inerte, mas não acordei em meu quarto como havia planejado, mas sim no mesmo inferno em que desfaleci ao tentar me libertar. Não existia em meus braços marcas sequer dos talhos que eu fiz. Eu acreditaria estar louco não fosse o sangue que continuava a manchar o chão. Enquanto tentava por ordem nos pensamentos uma torrente de lembranças transbordavam dos cantos mais recônditos da memória, e eram todas de momentos tristes e insuportáveis que haviam ficado enterradas no passado e que agora tomavam formas e se tornavam palpáveis como uma sombra feita de névoa negra que me engole e me sufoca e deixa meu corpo e mente como que avessados... Estou mesmo no Inferno!
Desespero, frio e uma vontade absurda de ser queimado, e enterrado, me assolam; O mundo girando numa velocidade terrível; Uma sensação de ter sido esquecido por Deus me dá o ímpeto de tentar mais uma vez o suicídio. Só que desta vez não para buscar liberdade, mas sim descanso. Corro mais que um animal furioso sem direção, quando me deparo, convenientemente, com um precipício. Este saciará minha vontade por paz. Eu me atiro, sem dar lugar a razão, no abismo insondável desejando ser partido em mil pedaços para nunca mais voltar a abrir os olhos neste mundo infernal. A queda é rápida e seca. A última coisa que eu escuto é o meu crânio se rachando para que meu cérebro possa se esparramar por sobre as pedras negras da salvação.
Quando tudo parecia terminado, meus olhos, sujos de lodo, se abrem dolorosamente me afastando do doce sabor do sono eterno que, aparentemente, não durou mais que o último. Antes não havia ficado cicatrizes em meus braços, porém, desta vez além da dor insuportável causada pela queda, minha cabeça se encontra aberta! Desde a fronte até pouco depois da nuca um talho jorra sangue continua e abundantemente, enquanto a massa encefálica, exposta, pulsa pressionando ainda mais o crânio rachado.
Eu me ergo e sinto meus ossos trincarem. Tento gritar de dor, mas só um grunhido se faz ouvir, isso por causa de minha língua que não se encontra mais em minha boca, foi arrancada com o impacto e só alguns dentes permaneceram, mas nenhum intacto. O sangue explode boca a fora quase me sufocando.
Ora andando, ora rastejando cruzo distâncias inimagináveis durante um tempo incalculável, e durante nenhum momento meu espírito teve paz. A dor física que eu sentia era nada comparada a angústia psicológica. Eu não sabia mais o que era coerência ou se isto não passava de uma palavra sem significado neste mundo, se é q existe outro – e eu sei que não existe. Tudo é Inferno e Inferno é tudo!
De repente o meu caminho é interrompido pelas águas sujas de um lago, o mais imundo que eu já vi. Seu odor causaria náuseas ao porco mais nojento que já pisou na face da terra. Como já citei, eu me encontrava num estado deplorável em que não conseguia distinguir o que era loucura ou lucidez, paranoia ou determinação. Assim, me despi de minhas roupas e com elas improvisei uma corda com a qual numa das pontas amarrei o meu pescoço e na outra a pedra mais pesada que pude erguer. O sangue ainda vertia de minha cabeça e com passos precisos me pus dentro do lago, me distanciando cada vez mais da margem. Já totalmente submerso continuei caminhando por mais um minuto ou cerca disso. Quando a vida reclamou por oxigênio larguei a pedra, que me puxou com ela para o fundo pantanoso do lago. Como se meu instinto lutasse contra minha vontade, minhas mãos descontroladas tentavam desatar o nó em meu pescoço, mas em vão, pois não havia mais força suficiente em meus dedos. A vista foi escurecendo e a dormência dominou os sentidos restantes. Enfim sentia a paz desejada.
Todavia, como quem acorda de um pesadelo meus olhos se abrem com pupilas dilatadas e quando tento aspirar vida para meus pulmões sinto minhas narinas se rasgarem como se uma barra de ferro as penetrasse. Antes mesmo que eu possa recordar o que aconteceu, água invade meu corpo torrencialmente. Sinto meu peito queimar, expandir e estourar. Sangue foge por minha boca, nariz e ouvido. A corda presa ainda em meu pescoço. A falta de ar perfurando minhas têmporas. Desespero e agonia se misturam ao meu túmulo aquático. E antes que eu faleça uma vez mais, uma última coisa me apavora mais que este suplício: Eu sei que acordarei de novo neste lugar, sangrando, agonizando e morrendo, sem de fato morrer.