Abstrato... Não pisei no chão que não vi...
Nem sei se andei, ou se cai.
Acordei longe, nem sei o tempo que passou.
Eu não estava aqui,
Não era minha a mão que me cuidou.
Cada brisa, cada brilho, cada fulgor...
Era menos verdadeiro que a dor.
Os olhos abertos, não sei... talvez não...
Talvez fosse apenas torpor
ou falta de ter um coração...
Abstrato... abstrato demais...
Nada é palpável... isso é paz?
Não sentir, não querer, não se importar...
Nada é real... e tanto faz.
Ando sempre em círculos... no mesmo lugar...
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quarta-feira, 19 de setembro de 2018
quarta-feira, 22 de agosto de 2018
O Triste Fim de Um Sonhador
Era uma vez um homem que amou loucamente uma mulher. Ele se chamava Edgar e ela, Hélen. Ele tinha uma virtude que também era o seu defeito: Era sonhador em demasia. De tão Dom Quixote que era não percebeu quando tudo que lhe era importante se afastou de seu redor. Inclusive sua amada. Aliás, foi ele quem dela se afastou. Os seus sonhos, não raro, tornavam-se devaneios, e suas fantasias de vez em quando traziam causas e efeitos para o mundo real. Hélen, diferente do pobre Edgar, era alguém com os pés no solo firme. Não quer dizer, porém, que ela não sonhasse. Tinha, sim, sonhos. Mas nunca colocara a carruagem à frente dos cavalos. Era cheia de vida, animada, articulada e precisa. Inclusive era de admirar como poderia ela amar um sujeito que vivia quase sempre fora da realidade. Era mesmo de se esperar que tudo tivesse um fim.
Edgar, como eu já disse, vivia em um mundo à parte, só seu. Estava sempre com os miolos cheios de realidades paralelas, batalha entre Anjos, Demônios e Deuses e tudo que parecesse sobrenatural. Era fácil o flagrar com algum livro que se referisse aos sonhos, ou aos Céus, ou até mesmo ao Inferno. Adorava particularmente o proibido, o irreal, o profano. E parecia acreditar mesmo naquilo que lia. Além de estar sempre falando, segundo ele, com Deus, com seus anjos e, às vezes, com Demônios. Porém, quando estes estavam ocupados demais, falava consigo mesmo. Certamente seria queimado vivo tivesse nascido alguns séculos antes.
A questão é: Porque Hélen o amava? Talvez ela sentisse uma necessidade de ser menos real ou previsível. Talvez ela não se agradasse de ser sempre um modelo de convencionalismo social, por isso se apegou a alguém tão desapegado a realidade. Já o que prendia Edgar a sua amada era fácil de dizer: Hélen era a ilusão palpável, o sonho real que podia tocar, abraçar e ainda assim continuar sonhando.
Todavia, sonhador como ele era, tinha tendências ao exagero, não só em seus pensamentos, mas também em suas deduções. começou a se perguntar o que ele representava, de fato, para Hélen. Percebeu, enfim, que nada tinha a oferecer-lhe. Apesar de seus sentimentos sinceros tinha certeza de que não a merecia. Chegou até mesmo a conclusão de que ela jamais o amou, mas sim que o estimava. Que ela o considerava frágil, e por isso precisava de proteção (e ele sabia mesmo que precisava). Não seria justo, pensava ele, mantê-la presa a um ser tão dormente e fútil. Não ela. Alguém tão forte e capaz. Alguém que merece mais. Alguém que é mais!
Várias vezes esse sonhador sentira o coração sumir de seu peito, mas dessa vez ele foi tirado à força por um buraco em suas costelas. A pressão, a falta de ar, o choro incontrolável e a suposta verdade: "Ela nunca me amou"! - Melhor assim, pois ela sofreria menos com o que estaria por vir. A inevitável separação.
Assim foi feito. De Edgar saíram muitas palavras, e nenhuma verdade. E de ambos poucos olhares, mas muita dor. A noite quase não chegou àquela tarde. E a mesma noite permaneceu por muito tempo. Se é que ela se foi.
Existe algo que eu não contei sobre Hélen: O seu orgulho. Esse sempre foi um traço marcante de sua personalidade. Um traço que se ausentou durante dias, ou mesmo meses, depois que foi abandonada (como se abandona alguém como Hélen?). Ela realmente amava Edgar. Ela sempre procurava saber notícias de seu amado. Muitas foram as vezes em que o telefonou pedindo-lhe que voltasse para seus braços, que ela só pertencia a ele e que o amava. Não foram poucas as vezes que ela fez isso depois de embriagar-se... para vencer o orgulho, talvez. Ou pelo próprio orgulho, e ter em que colocar a culpa por tal ação. Eu não sei e, sinceramente, não importa. O que importa é que ela o procurou, desesperadamente até. Porém nenhuma mudança na decisão de Edgar foi notada. Pelo menos não superficialmente. Pois a verdade é que todas as noites ele lutava consigo mesmo. Tentava se convencer que escolhera o melhor, não para ele, mas sim para ela. "No fim das contas ela ficará satisfeita, ou, até mesmo, feliz ao perceber o porquê de minha atitude", dizia ele.
Todavia, Edgar possuía uma alma, que sofria. Havia perdido sua âncora e por isso se ausentava ainda mais do mundo real. Ele estava perdido. Vagando num completo vazio da existência. Carregando seu próprio vazio no espírito. Ele abraça sua dor e aceita o destino que impôs a si mesmo. Às vezes se consolava recitando parte de um antigo poema:
O contato que Edgar mantinha com sua amada, ficava cada vez mais imperceptível. Ele não escondia sua "felicidade" todas as vezes que a encontrava. Sim, ele fingia estar bem. No entanto, cada vez menos se convencia das razões que o levou a abandonar sua própria vida. Ele não sabia mais o que fazer, que caminho deveria tomar. Viu-se mais uma vez perdido em suas cruéis dúvidas.
Então ele percebeu o quanto Hélem havia mudado, em vários aspectos. Ela se tornou tudo o que se esperava dela. Ela parecia ter encontrado todas as respostas do mundo. Com a ausência dele ela pôde se encontrar e evoluir, como ele havia previsto. Ela realmente não precisava dele. Em parte ele ficou feliz, e se perguntou se foi mesmo necessário a distância para que tudo isto acontecesse. Ele, nesse momento, olhou-se interiormente... e se assustou. Enquanto Hélen progredia espiritual e mentalmente, ele continuava o mesmo. O mesmo de sempre!
No último encontro que tiveram, conversaram durante toda a noite, e na voz dela, nas suas palavras, é como se ela dissesse que havia entendido as ações de Edgar. Que ela sabia o porquê de ter a abandonado. E parecia dizer: "Você estava certo". Edgar percebeu que nunca mais haveria lugar para ele em sua vida. "Valeu a pena tudo o que eu fiz?" - perguntava-se ele. E ao olhar para Hélen, para o seu sorriso, para o seu fantástico mundo real, ele teve certeza absoluta que sim. E completou seu pensamento: "Agora não sou mais necessário em lugar algum".
Hélen nunca mais veria seu amado com vida. Ela chorou muito por ele, e chorou muito mais quando soube o que Edgar escreveu em seu diário pouco antes de cortar seus pulsos:
"Ao que parece, eu salvei sua vida, Hélen. E não me importo se, para fazer isso, eu perdi a minha".
¹ http://amirapaltu.blogspot.com/2015/09/liberdade-imposta.html
Edgar, como eu já disse, vivia em um mundo à parte, só seu. Estava sempre com os miolos cheios de realidades paralelas, batalha entre Anjos, Demônios e Deuses e tudo que parecesse sobrenatural. Era fácil o flagrar com algum livro que se referisse aos sonhos, ou aos Céus, ou até mesmo ao Inferno. Adorava particularmente o proibido, o irreal, o profano. E parecia acreditar mesmo naquilo que lia. Além de estar sempre falando, segundo ele, com Deus, com seus anjos e, às vezes, com Demônios. Porém, quando estes estavam ocupados demais, falava consigo mesmo. Certamente seria queimado vivo tivesse nascido alguns séculos antes.
A questão é: Porque Hélen o amava? Talvez ela sentisse uma necessidade de ser menos real ou previsível. Talvez ela não se agradasse de ser sempre um modelo de convencionalismo social, por isso se apegou a alguém tão desapegado a realidade. Já o que prendia Edgar a sua amada era fácil de dizer: Hélen era a ilusão palpável, o sonho real que podia tocar, abraçar e ainda assim continuar sonhando.
Todavia, sonhador como ele era, tinha tendências ao exagero, não só em seus pensamentos, mas também em suas deduções. começou a se perguntar o que ele representava, de fato, para Hélen. Percebeu, enfim, que nada tinha a oferecer-lhe. Apesar de seus sentimentos sinceros tinha certeza de que não a merecia. Chegou até mesmo a conclusão de que ela jamais o amou, mas sim que o estimava. Que ela o considerava frágil, e por isso precisava de proteção (e ele sabia mesmo que precisava). Não seria justo, pensava ele, mantê-la presa a um ser tão dormente e fútil. Não ela. Alguém tão forte e capaz. Alguém que merece mais. Alguém que é mais!
Várias vezes esse sonhador sentira o coração sumir de seu peito, mas dessa vez ele foi tirado à força por um buraco em suas costelas. A pressão, a falta de ar, o choro incontrolável e a suposta verdade: "Ela nunca me amou"! - Melhor assim, pois ela sofreria menos com o que estaria por vir. A inevitável separação.
Assim foi feito. De Edgar saíram muitas palavras, e nenhuma verdade. E de ambos poucos olhares, mas muita dor. A noite quase não chegou àquela tarde. E a mesma noite permaneceu por muito tempo. Se é que ela se foi.
Existe algo que eu não contei sobre Hélen: O seu orgulho. Esse sempre foi um traço marcante de sua personalidade. Um traço que se ausentou durante dias, ou mesmo meses, depois que foi abandonada (como se abandona alguém como Hélen?). Ela realmente amava Edgar. Ela sempre procurava saber notícias de seu amado. Muitas foram as vezes em que o telefonou pedindo-lhe que voltasse para seus braços, que ela só pertencia a ele e que o amava. Não foram poucas as vezes que ela fez isso depois de embriagar-se... para vencer o orgulho, talvez. Ou pelo próprio orgulho, e ter em que colocar a culpa por tal ação. Eu não sei e, sinceramente, não importa. O que importa é que ela o procurou, desesperadamente até. Porém nenhuma mudança na decisão de Edgar foi notada. Pelo menos não superficialmente. Pois a verdade é que todas as noites ele lutava consigo mesmo. Tentava se convencer que escolhera o melhor, não para ele, mas sim para ela. "No fim das contas ela ficará satisfeita, ou, até mesmo, feliz ao perceber o porquê de minha atitude", dizia ele.
Todavia, Edgar possuía uma alma, que sofria. Havia perdido sua âncora e por isso se ausentava ainda mais do mundo real. Ele estava perdido. Vagando num completo vazio da existência. Carregando seu próprio vazio no espírito. Ele abraça sua dor e aceita o destino que impôs a si mesmo. Às vezes se consolava recitando parte de um antigo poema:
"Eu tinha um pássaro nas mãos
Que não me cabia possuir.
Dedos eram grades, uma prisão,
Que o impediam de partir.
Eu, dependente, o prendia.
Ele, feito tolo, aceitava.
Mas apesar da alegria
Meu coração se envergonhava."¹
O contato que Edgar mantinha com sua amada, ficava cada vez mais imperceptível. Ele não escondia sua "felicidade" todas as vezes que a encontrava. Sim, ele fingia estar bem. No entanto, cada vez menos se convencia das razões que o levou a abandonar sua própria vida. Ele não sabia mais o que fazer, que caminho deveria tomar. Viu-se mais uma vez perdido em suas cruéis dúvidas.
Então ele percebeu o quanto Hélem havia mudado, em vários aspectos. Ela se tornou tudo o que se esperava dela. Ela parecia ter encontrado todas as respostas do mundo. Com a ausência dele ela pôde se encontrar e evoluir, como ele havia previsto. Ela realmente não precisava dele. Em parte ele ficou feliz, e se perguntou se foi mesmo necessário a distância para que tudo isto acontecesse. Ele, nesse momento, olhou-se interiormente... e se assustou. Enquanto Hélen progredia espiritual e mentalmente, ele continuava o mesmo. O mesmo de sempre!
No último encontro que tiveram, conversaram durante toda a noite, e na voz dela, nas suas palavras, é como se ela dissesse que havia entendido as ações de Edgar. Que ela sabia o porquê de ter a abandonado. E parecia dizer: "Você estava certo". Edgar percebeu que nunca mais haveria lugar para ele em sua vida. "Valeu a pena tudo o que eu fiz?" - perguntava-se ele. E ao olhar para Hélen, para o seu sorriso, para o seu fantástico mundo real, ele teve certeza absoluta que sim. E completou seu pensamento: "Agora não sou mais necessário em lugar algum".
Hélen nunca mais veria seu amado com vida. Ela chorou muito por ele, e chorou muito mais quando soube o que Edgar escreveu em seu diário pouco antes de cortar seus pulsos:
"Ao que parece, eu salvei sua vida, Hélen. E não me importo se, para fazer isso, eu perdi a minha".
¹ http://amirapaltu.blogspot.com/2015/09/liberdade-imposta.html
sexta-feira, 17 de agosto de 2018
Alma Gêmea
Está tudo
acertado, à noite eu arranco o crânio daquele desgraçado. Há muito tempo nutro
um ódio, quase que religioso, por este homem, que nem mesmo ouso pronunciar seu
nome. Ele mora aqui mesmo na vila, e dia e noite eu o observo. Sinto repulsa só
de lembrar. É um sujeito de quase quarenta anos, bigode desgrenhado e o ar de
safado o acompanha. É dono de algumas casas do cortiço, vive do dinheiro dos
aluguéis. Está sempre bêbado e incomodando os vizinhos, e vez ou outra, abusa
de mulheres. Suas vítimas são sempre aquelas que não tem quem as defenda. É
aparentado de um delegado, que faz vista grossa às denúncias. O bastardo
estuprou a irmã de um amigo, que não tem culhões para fazer justiça. Mas eu
disse para a imagem do menino Jesus, que está no colo de nossa Senhora: “Basta,
Senhor! Faz de mim um instrumento de sua justiça, e que meu ódio seja
justificado pela honra das inocentes que ele deflorou. Que a lâmina de minha
peixeira derrame o sangue desse filho de rameira igual as lágrimas das moças
que ainda hoje choram esperando pelo castigo do miserável. Que minha mão seja
guiada pela vontade do Pai, e que o fim do desgraçado seja igual aos impuros de
Sodoma.” Dito isto, um raio caiu no horizonte, em frente da minha soleira. Era a
resposta que eu esperava e Deus a deu-me. Hoje à noite o inferno vai receber
mais um hóspede.
O meu tio é
dono da bodega em que o bastardo compra seu suprimento de álcool. Todas as
tardes ele leva consigo uma garrafa de cachaça do Ceará. Hoje não seria
diferente. Mas esta garrafa será distinta. Desde menino que eu ajudo meu tio
nos afazeres do estabelecimento. Velho de sessenta e oito anos, sem filhos,
adotou-me quando eu tinha treze anos, logo após a morte de minha mãe, sua
sobrinha. Meu pai, nunca o conheci, talvez outro deflorador, que eu teria
prazer de mandar em pedaços para o inferno.
Criança sem
pai, sempre fui muito danado. Desde novinho dava problema pra minha mãe.
Adestrei-me com facas desde os nove anos. Nunca fui de ter amigos, mas ninguém
do bairro queria ser meu inimigo. Todavia, tudo mudou num inverno. Minha mãe
foi desiludida da vida. Pobrezinha que sempre sofreu, não suportou tantos
fardos. Pneumonia, tuberculose e, por fim, a morte. Naquele momento eu poderia
ter me tornado o que eu estava destinado a ser... o próprio Satanás. A vida não
poderia me dar pancada maior. Mas foi o inverso que aconteceu. Eu fui morar,
como já disse, com o tio de minha mãe. Homem profundamente religioso. Ele me
acolheu como um filho, e apesar da minha perda, encontrei paz. A raiva deu
lugar à contemplação. A fé surgida só me deixou mais forte. Depois de anos de
dedicação percebi que eu deveria ser a mão de deus aqui nessa terra de ninguém.
Não como Cristo, Paulo ou Moisés. Mas como Sansão, que destruía o que era do
inimigo, que queimava suas plantações, arrancava seus portões, tomava suas
mulheres e esmagava os adversários de Deus. Eu seria a mão que pune!
Já é alta a
noite, e como esperado, o bastardo vem a mim e pede sua bebida, entrego a
garrafa que eu trouxe comigo, destilada na noite anterior com uma mistura que
eu mesmo preparei. O gosto do ópio não seria notado facilmente, não misturado
ao álcool. Ele bebe um trago e joga o dinheiro no balcão com desdém. Vai embora
esbarrando nos outros que parecem temer um cão raivoso. Eu, pelo contrário, sinto
o gosto de sangue na boca, lembro da teia que tramei e pego minha peixeira, me
dirijo ao meu tio, que está encostado em uma das portas da bodega.
_Tio, é hoje
que vou resolver aquele negócio. Sua benção...
_Deus te
acompanhe e alumie suas escolhas, e saiba que o povo irá falar, meu filho.
_Depois eu
vou sair com o irmão dela. Vou aproveitar a última noite de passarinho
solitário.
_Se fosse
outra mulher, o padre aceitaria fazer na igreja.
_Ela teve
alguma culpa pelo que houve?
_De jeito
nenhum. Mas você sabe como as coisas são. Seu coração é bom. Você vai sofrer
por causa disso. Vai logo pra não chegar tão tarde lá. – disse ele
passando a mão na minha cabeça.
Ao sair do
cortiço virei a esquina e corri para dar a volta. A casa do desgraçado dá nos
fundos de um terreno baldio na rua de trás. No terreno o mato é alto e a noite
ajuda a encobrir minhas ações. Pulo o muro a porta de trás está fechada. Sem
problemas. Não vejo trinco, então deve ter um ferrolho do outro lado. Madeira
velha, da porta e da soleira. Um empurrão firme e o ferrolho salta no ar.
Rapidamente entro e escoro a porta atrás de mim. Com respiração acelerada
confiro dois quartos antes de o encontrar na sala. Como esperado, minha vítima
jaz no chão, balbuciando uma língua comum dos embriagados. Dou-lhe um soco e
sua mandíbula desprende, queria desacordá-lo, mas foi melhor. Mais fácil de
cortar sua língua de cobra. Enfio a ponta do facão em sua boca por baixo da
língua e o giro da peixeira arranca um dente também. A língua sai tão fácil
quanto se rasga um pano em trapos. Não contei com o sangue, quase afogando o
infeliz. Ele acorda desesperado enquanto enfio um pedaço de minha camisa na sua
guela. O efeito do ópio já está passado. Ainda bem. Não queria que fosse tão
fácil. Ele se debate desesperado sem entender o que está acontecendo. Ele não
tem voz. Em um só movimento arranco sua orelha e um pedaço do rosto. Só agora
ele me olha no rosto, chorando, desesperado. Sangue e lágrimas se misturam. Ele
treme, geme e se deita como um cão sarnento. Nesse momento lembro das palavras
do meu tio: “Seu coração é bom”. Eu chuto o miserável nas costelas, nos seus
braços erguidos, sua barriga. Ele se encolhe. Piso suas mãos até os dedos
quebrarem. O pano cai de sua boca ele consegue grunhir, alto como um cão. Não
tenho tempo, o arrasto pela casa, com a mão livre pego o ferrolho e enfio na
sua boca. Ele faz menção de o retirar. Eu quebro sua mão. Ele chora sangue. Um
milagre! Eu volto para a sala e pego o facão. Com golpes frenéticos arranco
seus braços, ele ainda se contorce. Levanto uma de suas pernas e sinto o fedor
de mijo e merda.
_Você se lembra
de Ana? – e enfio o facão em suas virilhas até acertar o osso. Giro a lâmina
forçando o desgraçado a se contorcer ainda mais. Já não ligo para seus gemidos.
Os vizinhos devem estar pensando que ele copula com as rameiras que ele paga
por diversão. Elas nunca voltam a sair com ele, exceto quando obrigadas pelos
seus patrões. Como ninguém ao redor se pronuncia me solto um pouco mais. O
porco sangra sem parar, logo ele morrerá. Jogo água no desgraçado e ele parece
recobrar os sentidos. Arrependi-me de lhe tirar a língua. Queria ouvir ele
dizer o meu nome antes de morrer. Ele vomita sangue e água. Pulmões perfurados,
costelas partidas. É o fim. Dizem que não se chuta cachorro morto, então pelo
menos vou chutá-lo até ele morrer.
_Um! Dois! Três!
– seus dentes voam.
Ele já era.
Não tem mais graça. Levanto sua cabeça e enterro o facão em sua boca. Ele dá
espasmos, me suja com seu sangue nojento. Deve ter engolido o ferrolho. Animal
imundo!
Eu me lavo e
limpo também a peixeira. Pulo o muro e parto em direção à casa de Ana. Demora
pouco. Silas é quem me recebe.
_O que faz
aqui tão tarde?
_Vim ver a Ana.
Lembra-se do que lhe falei? Vou leva-la embora daqui.
_Para aquele
cortiço? Onde tudo aconteceu? Saímos de lá para tentar esquecer.
_Seus pais
estão acordados?
_Sim. Eu
falei para eles dos seus planos. Minha mãe chorou. Disse que você tem um bom
coração.
Eu entrei na
casa e os pais dele estavam na sala. Como eles já sabiam o que vim fazer ali,
só pedi a permissão para levar Ana comigo e eles a chamaram. Ela consentiu que queria isso também. O pai dela disse para ir nessa mesma noite.
_Já era
tempo dela ir embora. - disse o pai virando o rosto – Ela só me trouxe
vergonha.
Percebi que
muitos assassinos são justificados pelas vítimas. Aquele homem me deu motivo
para continuar matando. Mas não hoje.
_Não pegue
nada! Vamos embora. – falei com repulsa, olhando para aqueles hipócritas que
não fizeram o que deveriam.
Era muito
tarde. Nós caminhávamos devagar, contemplando a noite. Fomos pelo caminho mais
longo. Eu sabia do terror que ela passava naquela casa, sendo acusada por algo
que ela não provocou. Ouço as palavras dos que disseram “você tem um bom
coração” – tolos! Eu não tenho coração.
_O porco
sofreu? – perguntou ela.
_Fiz o
possível para ele desejar estar no inferno. No fim das contas tenho certeza que
ele pagou o preço.
_Quero que
me conte tudo. Cada detalhe.
Eu sabia que
havia encontrado uma parceira, um álibi. Eu continuaria a fazer o que comecei.
E tenho alguém tão sem coração quanto eu.
quinta-feira, 12 de julho de 2018
Lembranças de minha infância I
A história que vou contar agora não é bonita nem requintada, é apenas fria e dolorosa, como a verdade é!
Quando eu era criança, aos quatro anos de idade, eu costumava brincar no quintal de minha casa. Lá eu cavava e enterrava meus insetos de estimação, alguns ainda vivos, é verdade. Eu ficava bastante tempo esperando algum deles sair, o que não era raro, só para enterrá-los de novo. Os insetos são seres muito resistentes, por isso, às vezes, eu arrancava algumas de suas patas para dificultar sua fuga, outras vezes eu simplesmente tirava-lhes todos os membros, e lhes deixava apenas com a cabeça para fora, enquanto eles se contorciam desesperados, com medo. Meus insetos preferidos eram os gafanhotos, grandes, mais fáceis de pegar que os grilos, menores e mais ágeis. Às vezes eu pegava um besouro qualquer e o prendia ao chão com um palito de dente transpassado no seu tronco. Quando se é criança e não tem brinquedos precisa-se usar a imaginação. E foi justamente isso que me deixou em maus lençóis.
Numa tarde de inverno, enquanto eu brincava inocentemente com meus insetos, não percebi o dia indo embora e deixando o rastro rubro nos céus, quando de repente um grito me levantou aflito da minha labuta. Quando ergui meus olhos eu vi, uma rasga-mortalha em voos circulares que descia cada vez mais em minha direção. Antes que ela pousasse no telhado do banheiro outra aparição me chamou a atenção. Enquanto o pássaro gritava sua canção funesta um corpo balançava a minha frente, suspenso apenas por uma corda envolta em seu pescoço. Nesse instante o mundo mergulhou em trevas e tudo deixara de existir. Apenas o corpo, o pássaro e eu existíamos. Eu não tinha voz para gritar. Só a rasga mortalha quebrava o silêncio. E o corpo pendurado, não estava inerte. Ele tinha a boca costurada e as mãos também amarradas, a pele era branca como cinzas de carvão, mas seus olhos... esses tinham mais vida que eu naquele momento. E olhava para mim, me fitando com ar de reprovação. Os olhos vermelhos refletiam o céu em chamas e todo o resto era breu.
Fui encontrado deitado no chão do quintal por minha mãe, apenas dormindo. Cheguei a pensar que tudo não passara de um sonho, que minha mente só me pregou uma peça naquela tarde e que o cansaço me perturbou. Ledo engano, embuste do destino.
À noite, naquele mesmo dia, o pássaro rasgou seu canto uma vez mais. À beira da porta dos fundos ele me chamava, batendo na porta com seu bico. Eu levantava aturdido da cama, buscando abrigo no quarto de meus pais. O medo era tamanho que não conseguia segurar a urina. Voltei a ter dois anos de idade e queria dormir com meus pais. Passei a ser sonâmbulo e saia de casa sozinho no meio da madrugada, e era encontrado por vizinhos que acordavam meus pais. Passou-se alguns anos e todas as noites era o mesmo quadro: batidas na porta, o canto do pássaro e o frio que cortava minha alma. Histórias de Lobisomem, vampiros e monstros aquáticos não me afetavam. Mas a lembrança do homem enforcado estava sempre comigo.
Certa madrugada, eu atendi o chamado do pássaro negro e olhei pela fresta da porta. Lá estava ele, o corpo pendurado, balançado suavemente pela brisa noturna. Nenhum sinal do pássaro a não ser seu canto, rasgando a noite fria.
Parei de me impressionar com o sobrenatural ainda jovem. Convivo com o inexplicável desde então. Quanto ao homem na forca, talvez só o encontre novamente quando chegar minha hora derradeira, quando o peso da vida não for mais suportável e me deixe pender por uma corda para que seja meu corpo o único fardo suspenso no ar.
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