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sábado, 31 de março de 2012

SEM SAÍDA

De Cícero Silveira

“Oh! Vós que entrais, abandonai toda a esperança!”
_Dante Alighieri

Certa noite, cansado e de pálpebras terrivelmente pesadas, caí num sono profundo, que em aparência lembrava a morte não fosse o fato de ainda respirar. O caso é que, não sei se por causa da exaustão, me vi adentrar num mundo fantasioso de devaneios. Não mais me encontrava em minha casa. Eu havia cruzado a fronteira do tempo e do espaço e estava agora numa realidade incompreensível para minha razão. Porém este lugar, este estado mental, levou o meu desgaste físico-psicológico para além dos limites suportáveis. Eu vivenciava o mais expressivo pesadelo de minha vida inerte. Soberbamente aterrorizavam o tempo e os muros titânicos que me cercavam até alturas infinitas. Em um desses muros havia um gigantesco relógio, velho e parado. Ver seus ponteiros inflexíveis era uma tortura para mim. Eu senti a loucura roçar nos meus pensamentos e como se fosse um animal acuado por terríveis feras procurei uma brecha por onde fugir. Ao passar por uma porta não encontrei o céu que conhecia, aliás, não encontrei céu algum! As paredes sufocantes ainda existiam. O desespero já tomava conta de minha alma e preces angustiadas jorravam de meus lábios, suplicando a Deus que me despertasse os sentidos. Eu corri por todo esse labirinto e sua forma era como a de um círculo, pois eu voltava sempre ao mesmo lugar. O chão deste lugar era coberto por lixo que exalava cheiros horríveis. Porém, foi neste chão podre que eu caí de joelhos, entregue ao acaso.
Como nunca antes, eu desejei morrer, porque eu sabia que a morte me traria de volta a vida (?), e com um pedaço de vidro apanhado do lixo talhei um profundo corte no meu pulso e antes mesmo do sangue jorrar eu senti uma dor terrível, que me fez perceber que talvez não fosse um sonho a final. Porém, sem pensar, deslizei o vidro no outro braço, e enquanto o chão tingia-se de vermelho-rubro os pensamentos corriam desordenados para então tudo tornar-se turvo. Até que, finalmente, trevas fosse minha única visão.
Não sei precisar quanto tempo fiquei inerte, mas não acordei em meu quarto como havia planejado, mas sim no mesmo inferno em que desfaleci ao tentar me libertar. Não existia em meus braços marcas sequer dos talhos que eu fiz. Eu acreditaria estar louco não fosse o sangue que continuava a manchar o chão. Enquanto tentava por ordem nos pensamentos uma torrente de lembranças transbordavam dos cantos mais recônditos da memória, e eram todas de momentos tristes e insuportáveis que haviam ficado enterradas no passado e que agora tomavam formas e se tornavam palpáveis como uma sombra feita de névoa negra que me engole e me sufoca e deixa meu corpo e mente como que avessados... Estou mesmo no Inferno!
Desespero, frio e uma vontade absurda de ser queimado, e enterrado, me assolam; O mundo girando numa velocidade terrível; Uma sensação de ter sido esquecido por Deus me dá o ímpeto de tentar mais uma vez o suicídio. Só que desta vez não para buscar liberdade, mas sim descanso. Corro mais que um animal furioso sem direção, quando me deparo, convenientemente, com um precipício. Este saciará minha vontade por paz. Eu me atiro, sem dar lugar a razão, no abismo insondável desejando ser partido em mil pedaços para nunca mais voltar a abrir os olhos neste mundo infernal. A queda é rápida e seca. A última coisa que eu escuto é o meu crânio se rachando para que meu cérebro possa se esparramar por sobre as pedras negras da salvação.
Quando tudo parecia terminado, meus olhos, sujos de lodo, se abrem dolorosamente me afastando do doce sabor do sono eterno que, aparentemente, não durou mais que o último. Antes não havia ficado cicatrizes em meus braços, porém, desta vez além da dor insuportável causada pela queda, minha cabeça se encontra aberta! Desde a fronte até pouco depois da nuca um talho jorra sangue continua e abundantemente, enquanto a massa encefálica, exposta, pulsa pressionando ainda mais o crânio rachado.
Eu me ergo e sinto meus ossos trincarem. Tento gritar de dor, mas só um grunhido se faz ouvir, isso por causa de minha língua que não se encontra mais em minha boca, foi arrancada com o impacto e só alguns dentes permaneceram, mas nenhum intacto. O sangue explode boca a fora quase me sufocando.
Ora andando, ora rastejando cruzo distâncias inimagináveis durante um tempo incalculável, e durante nenhum momento meu espírito teve paz. A dor física que eu sentia era nada comparada a angústia psicológica. Eu não sabia mais o que era coerência ou se isto não passava de uma palavra sem significado neste mundo, se é q existe outro – e eu sei que não existe. Tudo é Inferno e Inferno é tudo!
De repente o meu caminho é interrompido pelas águas sujas de um lago, o mais imundo que eu já vi. Seu odor causaria náuseas ao porco mais nojento que já pisou na face da terra. Como já citei, eu me encontrava num estado deplorável em que não conseguia distinguir o que era loucura ou lucidez, paranoia ou determinação. Assim, me despi de minhas roupas e com elas improvisei uma corda com a qual numa das pontas amarrei o meu pescoço e na outra a pedra mais pesada que pude erguer. O sangue ainda vertia de minha cabeça e com passos precisos me pus dentro do lago, me distanciando cada vez mais da margem. Já totalmente submerso continuei caminhando por mais um minuto ou cerca disso. Quando a vida reclamou por oxigênio larguei a pedra, que me puxou com ela para o fundo pantanoso do lago. Como se meu instinto lutasse contra minha vontade, minhas mãos descontroladas tentavam desatar o nó em meu pescoço, mas em vão, pois não havia mais força suficiente em meus dedos. A vista foi escurecendo e a dormência dominou os sentidos restantes. Enfim sentia a paz desejada.
Todavia, como quem acorda de um pesadelo meus olhos se abrem com pupilas dilatadas e quando tento aspirar vida para meus pulmões sinto minhas narinas se rasgarem como se uma barra de ferro as penetrasse. Antes mesmo que eu possa recordar o que aconteceu, água invade meu corpo torrencialmente. Sinto meu peito queimar, expandir e estourar. Sangue foge por minha boca, nariz e ouvido. A corda presa ainda em meu pescoço. A falta de ar perfurando minhas têmporas. Desespero e agonia se misturam ao meu túmulo aquático. E antes que eu faleça uma vez mais, uma última coisa me apavora mais que este suplício: Eu sei que acordarei de novo neste lugar, sangrando, agonizando e morrendo, sem de fato morrer.

MEU DEMÔNIO INTERIOR

De Cícero Silveira


Há certas faculdades mentais ainda não explicadas pela ciência humana, certos estados psicológicos insondáveis para homens comuns. Por isso não conseguem decifrar a mente de um suposto maníaco homicida, ou mesmo dos loucos. Não nego que até mesmo para mim foi difícil compreender tal natureza. Todavia em momentos específicos, minha mente adentra-se numa sucessão de pensamentos mais semelhantes a devaneios, alucinações, não fosse o fato de Eu mesmo coordenar, não os pensamentos, mas as sequências em que eles se apresentam, tal como se meu raciocínio decifrasse o ilógico, mas que ao mesmo tempo impossível de eu descrever fielmente o labirinto que leva ao logos. Porém, e se esses devaneios fossem reais?
Bem, tudo se iniciou numa manhã de sexta-feira, a primeira do segundo mês do ano passado, e desde então as lembranças daquele dia tem me acompanhado como um fantasma que não quer partir para seu devido além. Fazia frio e por isso custei a me levantar da cama, mas quando pus os pés descalços no assoalho, ainda mais gelado que aquela manhã, eu senti um calafrio que parecia ferir minha alma. Naquele momento eu soube que algo ruim estava para acontecer. Durante todo o dia vaguei aéreo, ausente de mim mesmo, como um prenúncio de que eu não pertencia mais a este mundo. Eu estava vazio.
Ao chegar à noite ainda me encontrava macilento, como quem bebera litros de um bom vinho. No silêncio de meu quarto apenas um leve odor de mofo se fazia sentir. De repente um barulho veio da cozinha, parecia o som de algum talher que caíra. De novo fui acometido por um calafrio, e este me tirou até mesmo o ar por alguns segundos. Não sei se fiquei assustado ou aturdido, ou se ainda estava ausente de meus sentidos normais. O certo é que eu me senti vagamente arrastado até a cozinha que estava mergulhada em trevas noturnas e dei de frente com um vulto que se crescia em minha direção. Seria impossível descrever a dor que me fincou na cabeça naquele instante, pois tão depressa quanto ela surgiu assim mesmo ela esvaiu-se. Mas tenho certeza que ela foi tão lancinante quanto uma barra de ferro, vermelho brasa, me transpassando de um ouvido ao outro por um décimo de segundo tão eterno quanto o fogo do Inferno. De repente tudo ficou negro e em paz, ausente de sensações. Eu não sentia, não era e não sabia, ou seja, Eu estava livre. Agora percebo o quão bom isto era.
Infelizmente (ou felizmente, ainda não sei ao certo) uma luz incômoda varreu toda aquela paz mística que me tornava um com Deus e me trouxe de volta a consciência. Contudo foi só isso que voltou, pois eu ainda não estava munido dos sentidos físicos, a não ser da visão. Minha casa ainda estava escura, mas conseguia vislumbrar cada canto dela. E apesar da consciência refeita não me assustei nenhum pouco com a figura de meu algoz que ainda empunhava a arma de suplício usada em mim. Era mesmo uma barra de ferro, mas não em brasa. Ele, certamente um ladrãozinho qualquer, parecia não me ver e Eu não conseguia me importar com isso, pois ainda tentava entender o que estava acontecendo quando percebi que ele parecia hipnotizado. Quando meus olhos encontraram o motivo de seu semblante estático todos meus sentidos antes ausentes se fizeram sentir, todos de uma vez, como uma torrente de um rio irado, que destrói represas e qualquer coisa que se encontre em seu caminho. Era para mim que ele olhava, mas não era eu quem estava lá. Um desespero indescritível tomou meu íntimo, eu não era capaz de compreender o que se passava. Eu estava a pouco mais de quatro metros de mim mesmo. Eu tentei falar algo, mas não encontrava ar, e isso não me sufocava. Eu havia abandonado meu próprio corpo que não estava morto, pois estava de pé, respirando sofregamente. Enquanto Eu, sem meu corpo, era só um espectro, preso entre dois mundos, sem saber ao certo a qual dos dois pertencia.
O invasor continuava paralisado, fitando meu corpo ensanguentado. Na altura da têmpora esquerda uma fenda mostrava parte do meu crânio. Certamente fui atingido ali por várias vezes depois de ser nocauteado. Com certeza foi o fato de eu ainda estar de pé que assustava meu carrasco (e isso me assustava agora também) e o impedia de incitar-se novamente sobre mim. Meu aspecto era horrível, desfigurado, pintado de vermelho-rubro, e uma ira que brotava dos meus olhos me deixava ainda mais animalesco, um demônio! Só podia ser essa a razão de meu corpo continuar vivo sem minha alma, um Demônio havia se apossado dele. De repente, como um chacal faminto, meu corpo investe contra o ladrão e este não oferece nenhuma reação. Unhas e dentes dilaceram o larápio, sangue e vísceras jorram em meio aos gritos da nova vítima, ossos são arrancados de dentro da carniça epilética. Seus gritos eram horripilantes, ainda assim pareciam insuficientes para descrever a dor que o dilacerava a alma. Eu, satisfeito, vislumbro a tudo e me sinto recompensado. Agora Eu poderia descansar em paz.
Tudo voltou a ficar negro e Eu mergulhei nesse mar de Trevas e me deixei ficar por quase uma eternidade. A maldita luz mais uma vez desequilibra a harmonia em que me encontrava. Abro os olhos, languidamente, como se tivesse dormido mil anos. Eu estava deitado no chão da cozinha, meus olhos fitavam o teto. Minha cabeça doía. Pus a mão em minha cabeça e senti uma cratera aberta transbordada de sangue coagulado. Eu estava vivo! Ao meu redor carne retalhada, ossos triturados e litros de sangue cobrindo o chão. Apenas a cabeça de meu inimigo resistiu à fúria demoníaca. Eu a ergui frente aos meus olhos e não contive a gargalhada desvairada e cínica que parecia vir do Inferno.

NOITE CHUVOSA

De Cícero Silveira

“Ao menos aqui o meu trabalho não foi em vão”
_Edgar Allan Poe

Já era tarde da noite e chovia muito quando eu voltava para casa depois de mais um dia de aula. A rodovia que ligava a Faculdade à cidade era longa e deserta. Apesar do cansaço não me distraí em nenhum momento. De repente um farol alto de moto que vinha longe chamou minha atenção, pois cambaleava para ambos os lados da pista. Sabia que aquele condutor era um perigo proeminente, resolvi então diminuir a velocidade. Porém nem precisava tanto, porque o motoqueiro saiu da estrada e adentrou-se na mata costeira. Consegui ouvir o impacto de sua moto ao bater em uma árvore, talvez. Parei meu carro e pensei duas vezes se deveria ou não averiguar o acidente. Optei por ir, movido mais pela curiosidade, confesso, do que para ajudar o infeliz.
A moto estava totalmente destruída depois de haver trombado em uma rocha de pelo menos 1,7m de altura por 4,5 de comprimento, uma verdadeira parede. Deveria estar correndo a quase 100K/h a julgar pelo estado do veículo. Mas seu condutor, miserável sortudo, tinha caído metros antes do impacto. Seu aspecto era algo medonho, visivelmente se notava suas pernas quebradas, sendo que uma delas apresentava uma fratura exposta. O fêmur partira-se no meio e estava quase todo à mostra. O odor de álcool era forte, provando a embriaguez do infeliz. De repente ouço o moribundo balbuciar alguma coisa incompreensível. Chego mais perto para ouvir: “Me ajude...” – ele disse. A voz era perturbadoramente familiar apesar da pouca força com que falou. Retirei o capacete dele e para meu espanto era realmente um conhecido meu! Seu nome era Tomas Parkinson, um sujeitinho esnobe com quem eu nunca simpatizei. Na verdade já pensei odiar este inseto. Tínhamos alguns amigos em comum, mas a indiferença entre nós dois era mútua. Menos mal, assim eu não precisava me ressentir pelo que estava prestes a acontecer com o maldito. Houve dias em minha vida em que eu precisei me segurar para não fazer atrocidades que me trariam consequências desagradáveis, mesmo que o impulso feroz que arrebentava meu peito fosse quase impossível de ser freado eu tinha que morder o próprio lábio e me contentar com o gosto de meu próprio sangue na boca.
Quantas vezes eu já quis chegar armado no trabalho e disparar doze tiros na cabeça de cada um dos meus colegas de ofício, aqueles patifes insignificantes que me dão nojo. Porém naquela noite o destino parecia me sorrir. Aquele inútil jogado aos meus pés pela sua imbecilidade. Uma pena suas pernas estarem quebradas, queria eu mesmo fazer isto. Pelo menos ainda restam os braços, as costelas e por fim a cabeça. “Me ajude” ele dizia, e meu cinismo era visível em meu sorriso. Puxei o desgraçado pelos cabelos até próximo dos destroços de sua moto e nesse instante ele vomitou nos meus sapatos. Se eu pretendia me divertir um pouco com o diabo, a vontade passou a ser matá-lo de uma só pisada, e foi o que eu fiz, dei um chute na cabeça do vagabundo como se estivesse enxotando algum cachorro leproso, e era sangue que saia da sua boca agora. Infelizmente o impacto foi suficiente para desacordá-lo. Cheguei a pensar que o tinha matado, “Mas já?” – exclamei decepcionado. Peguei-o pelo braço e com ajuda do meu pé direito apoiado em suas costas, numa torção rápida, desloquei seu ombro. Ouvir o som de ossos secos fazendo “clack” foi como ouvir o riso de uma criança. Esperei alguns instantes mas o brinquedo não acordava. Já era quase meia noite, então resolvi me apressar em terminar o que comecei. Virei o corpo de modo que ficasse com o peito para cima e pisoteei seu tórax como se quisesse matar um inseto asqueroso, mas pisei com uma força quase suficiente para quebrar minha própria perna, e só quando senti os ossos cederem e afundar em seu peito e parecer como se eu pisasse em gelatina foi que fiquei satisfeito. Depois disso jorrava sangue em demasia de sua boca e aquilo me deixou ainda mais excitado. Procurei por uma pedra de peso significante para encerrar meu trabalho com dignidade e encontrei uma ovalada de aparência quase lapidada, pesava cerca de sete quilos, era perfeita!
Aproximei-me do cadáver e me ajoelhei junto a sua cabeça, parecendo que eu faria alguma oração pelo morto. “Satanás, se quiser, que cuide de sua alma, porco nojento!” – e com a pedra esmaguei o crânio do maldito, não precisei de mais que três pancadas para isso. Então uma tristeza me bateu, pois eu deveria ter conservado a cabeça inteira para remover o crânio e guardá-lo como recordação. Contudo, no fim das contas foi melhor assim. Além do mais eu tinha a pedra, e foi o que eu fiz, a levei para o carro e a coloquei no porta-malas e fui embora com a alma mais leve. A chuva continuava a cair e tornava a noite mais bela. Não é todo dia que temos a oportunidade de extravasar nossos problemas e aflições, por isso sei que aproveitei bem essa dádiva.
No dia seguinte estava em todos os noticiários: o jovem embriagado que perdeu o controle de sua moto e, após sair da estrada, estraçalhou-se todo junto com ela numa rocha,. “Onde essa juventude espera chegar agindo assim?” indagou um jornalista horrorizado. Eu olho para a pedra que descansa ao lado de minha cama e me rio por dentro de satisfação.


Fim

quinta-feira, 22 de março de 2012

EU QUERO O SEU CRÂNIO

Peça a Deus para Eu não lhe encontrar
Nas negras horas de calma madrugada,
Quando meu Espírito costuma se ausentar
E a sede de sangue me maltrata;

Eu não sei o que seria de você,
Da sua pobre alma fraca, ignorante.
Mas nos meus olhos você poderia ver
O terror das vítimas que já matei antes;

Tenho crânios guardados em meu quarto
E um espaço vazio esperando o seu.
Feito um Chacal faminto, Eu aguardo
E na hora certa nem chame por Deus;

Eu farei vários furos em seu corpo,
Um para cada vela que Eu acender.
E feito a carcaça de um nojento porco
Eu deixo sua cabeça intacta, para apodrecer.