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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

LIBERDADE IMPOSTA

Eu tinha um pássaro nas mãos
que não me cabia possuir.
Dedos eram grades, uma prisão
que o impediam de partir;

Eu, dependente, o prendia.
Ele, feito tolo, aceitava.
Mas apesar da alegria
meu coração se envergonhava;

Assim sendo, eu o libertei.
Mas o tolo pássaro não partiu.
Eu, louco então, o esmaguei
pois a ira me consumiu;

Enquanto o sangue escorria
o desespero me assolou.
A minha mão suja tremia
_Por que você não voou?

_Pássaro idiota! - e a cabeça
desprendia do amolgado corpo.
E como numa tragédia grega
o vivo é justificado pelo morto.

REOBOTE

A chuva molha todo o pátio,
As árvores góticas balançam ao vento
E do centro deste átrio
Voa solto, para longe, meu pensamento.

Lembro-me de quando não fui sincero
E dos pecados que moldaram quem sou.
Por dentro eu me desespero
Pelo pouco espírito que me sobrou.

Já não vejo a linha tênue que nos separa
do que é certo, errado ou justo.
O mundo real já não nos ampara
E assim vamos vivendo, a muito custo.

Soneto Para Uma Alma Perdida

Ela não orou antes de dormir
e o Demônio veio uma vez mais.
Incrível! Sou eu quem perco a paz
Porque sei o que está por vir;

O seu câncer a crescer e destruir
a sua alma! Eu nada faço.
Se não fosse o nosso laço
eu poderia até sorrir;

Uma vez, eu lhe disse: "Cuidado
com o homem do olhar de cobra!"
Ele vai lhe matar e as sobras

serão lixo e resto putrefato.
É só isso que a vida nos cobra:
A verdade, não o seu caráter falsificado.