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domingo, 20 de novembro de 2022

REALIDADE

 Eu que procurei, tantas vezes, ser sincero

Não reconheço o homem que me tornei.

Nas garras de um destino sempre severo

Perdi-me entre os males que plantei.


O céu, sem luz para me guiar,

Cansou de lamentar por minhas ações.

E a chuva, a única a me abraçar,

Parece me condenar em seus trovões.


Eu tento me esconder nas sombras,

mas as trevas são espelhos a me encarar.

O meu pecado me assombra,

Não encontro refúgio em nenhum lugar.


Eu quebro a cabeça, destruo a casa.

E, mesmo assim, a dor não se esvai.

Eu peço a Deus que me dê asas

E meus pés se prendem ainda mais.

PÁSSAROS

Ela não acredita no que vê.

Deve ser por isso que não sabe voar.

Para ela Fé é o mesmo que crer

E carência o mesmo que amar.


Somos dois animais acorrentados.

Ela é dócil, domesticada.

Se contenta com os ossos

De uma vida fútil, entediada.


Mesmo que a vida me prive

De correr, voar e ser selvagem,

Eu sei que nasci para ser livre,

Fugidio como uma miragem.


Embora meu corpo, agora preso,

Nunca prenderam o meu espírito,

Que guarda ainda, não em segredo,

O meu EU sempre vívido.

RUAMA

Ontem a chuva veio sem aviso

Deixando tudo em branco e preto.

E seguindo um rumo impreciso

As lembranças que me dão medo.


As gotas de água na janela,

O cheiro forte que me toma.

O passado feito uma cela,

Uma corrente que me doma.


Raios, trovões, a tempestade!

Ela serve perfeitamente de moldura.

A sensação de liberdade,

Infinita, enquanto dura.


Porém não é a chuva que apaga.

Na verdade, ela é combustível

Que reacende totas as marcas

De algo eterno, inconsumível.


Tal como um sonho (só meu)

Que me foi dado de presente.

Um sonho que já lhe aconteceu

sem meu legado, sem minha semente.

THOR

Tu permaneces inflexível à minha situação!

Alheio à minha vida, o que contemplas então?

O olhar austero nem sequer se desvia.

Como estátua tens ficado durante noites e dias.

Eu clamo, ajoelhado, batendo no meu peito!

Há noites não durmo, inquieto em meu leito.

Até o céu sofre com a dor que me corrói.

Mas Tu, inabalável, nem parece o meu herói...


28 de fevereiro de 2010

INVENCÍVEL ZEUS

Da fértil Terra

nasceram os Gigantes.

Armados para Guerra,

de olhares triunfantes.


Filhos do Céu,

e ainda assim, taciturnos.

Escondido num véu

o pior deles: Saturno.


De curvo pensar

e uma fome implacável.

Déspota a reinar

com maldade imensurável.


Apenas derrotado

por um filho seu.

De raios armado,

o invencível Zeus!