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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

À BEIRA DO ESTIGE


Não mereço o céu, não mereço o inferno!
Não pesei sobre a terra em que piso.
Todos os dias, do verão ao inverno,
Nem tristezas, nem sorrisos;

Eu não sei o que é ajudar
Também Não sei se já fiz alguém cair.
Será que Eu fiz alguém sangrar?
Não me lembro de ter feito alguém sorrir;

Eu fui já antídoto ou mesmo veneno?
Acho que fui neutro, invisível demais.
Porque não vi nenhum aceno.
Nenhum barco esperava-me no cais.

DE MIM MESMO

Hoje, eu ando distraído, impreciso.
A idade acumulou-se em minhas costas.
E, apesar de meu sorriso,
Pesa-me a dádiva imposta.

Eu prefiro acreditar que foi o tempo
O responsável pela mudança de meu ser.
Partes de minha vida eu não lembro,
Esqueci-me que eu nunca fui de esquecer.

O mais triste é que eu mudei de tal forma
Que até o mundo pareceu mudar.
Assim, enquanto o mundo se deforma,
Eu me vejo, também, a me deformar.

Mas confesso que não me preocupei.
Já não sofro mais como antes.
Quando de mim mesmo me ausentei
Até a dor ficou distante.

ALMA DOENTE

Eu sofro quando não estou com sono
Pensamentos nostálgicos não me deixam em paz.
Às vezes, nem se nota o meu ar tristonho
Mas por dentro desmorono-me num choro tenaz;

Lembranças de vidas passadas, mortas e enterradas,
Coisas que eu sinto e que nunca cheguei a viver.
O semblante ainda de uma pessoa despreocupada
Apesar da angústia no espírito a me corroer;

Quando tento entender o que me acontece
Vejo que minha vida não poderia ser diferente.
Sinto-me assim sempre que anoitece:
Entorpecido, desde que nasci, de alma doente!

ENCLAUSURADO

Antes tudo era claro e exato
E mesmo na escuridão havia certeza
Não era necessário provar com tato
As coisas eram o que eram, por natureza;

A verdade inflexível e inexorável
Eu mesmo centrado e incorruptível
Filho do Átomo inquebrável
E, por tanto, eu mesmo indivisível;

Mas desviei-me sem ao menos perceber
O caminho que se tornara um viés
Eu fiquei vazio, a me perder,
Sem controle sobre os meus pés;

Algo me cegava e me prendia
Aos poucos me tornei uma pessoa comum
A alma no peito a ficar fria
Não me encontro agora em lugar algum;

De repente, num sonho, ou devaneio,
A luz do archote surge para me guiar
Mas o mundo real como um freio
Proíbe meu espírito de avançar...

INVERNO

Não deixe eu me acostumar com os seus gritos
Eles me jogam para longe do seu coração
Como se eu lutasse contra Grifos
Perco uma vida em cada arranhão;

Você diz que não vive sem mim
Mas no mesmo instante me chama de Inferno
Eu caio num abismo sem fim
E todas as estações se mesclam num inverno;

Às vezes eu sinto frio, sabia?
Lembra-se da última vez que eu chorei?
Cadê toda aquela magia
Que em você um dia encontrei?

domingo, 14 de setembro de 2014

DIVERSUS INTER PARES

Tenho vivido de forma intangível
Só às vezes conseguem me encontrar
Até no espelho sou invisível
Deixei a vida, sem vida, me levar;
Às vezes, lembro-me de Deus
E de Satã com a mesma frequência.
E como se sentisse o frio dos Pireneus
Vence-me a dormência;
E assim fui ficando à parte da vida
Deixando-me em vários lugares
Diminuí-me como em dívida
Mesmo sendo diversus inter pares;
Mas tenho estado supostamente feliz
Alienado no mundo em que estou
Sentindo a ferida aberta na cicatriz
Do mundo que o Senhor, um dia, me arrancou.