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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

NOITE INQUIETA


Certa noite um sonho tenebroso
Fez-me refém durante o sono:
Foi numa noite fria e chuvosa
No fim do outono;

Eu me encontrava numa caverna
Onde havia extensa escadaria.
Pus-me a descer, sem medo,
Apesar daquela escuridão sombria;

A cada passo que eu dava
Sentia tremer aquele chão.
De repente ouço uivos
De algum soturno cão;

Não sei se foi pelo uivo,
Mas eu estava, agora, aflito!
Minha mente esvaneceu-se
Eu não venceria este conflito;

O cão surge em minha frente,
O chão abre-se aos meus pés!
A sanidade agora ausente
Apenas pavor em minha tez;

O cão gigante, pavoroso,
Pressionava-me ante a cratera.
Havia três cabeças em seu pescoço
Era negro como uma pantera;

Então vi, montado em seu dorso,
Uma figura esquálida!
Era só trapo e osso,
Numa pele seca e pálida;

A figura esdrúxula gritou:
“Acalma-te, alma ainda terrena!”
Da Fera ele saltou
A imagem era ainda mais horrenda;

A cabeça calva, olhos fundos,
A carne há tempos apodrecida.
Um Demônio de outro mundo
Tomando minha vida!

Ao se aproximar de mim
Seu odor me fez vomitar.
As forças fugiam, era meu fim,
Ninguém viria me salvar;

“O que fazes tão longe de casa?”
“O que buscas aqui nos Infernos?”
“Onde estão tuas asas?”
“Responda, filho do Eterno!”

_Não tenho asas, não sou anjo.
Sou apenas um homem perdido!
Não me adentrei neste antro
Eu fui trazido!

“Agora entendo o teu destino”
“Tal como o que me aconteceu”
“O vazio no peito desde menino”
“As costas viradas para Deus.”

“Agora este é o meu castigo:”
“Habitar o mundo que assombra”
“Tenebroso Reino do Holocausto.”
“Vá embora, meu amigo.”
“E não te esqueça desta sombra”
“que um dia chamou-se Fausto!”

UM SONHO

Todas as noites o mesmo pesadelo:
Sob um suposto céu plácido
Meus braços queimam em ácido
Estarrecendo-me com um medo
Que me sobe dos pés aos cabelos;

Vejo no ar horrendas criaturas
Armadas de ferrões e asas
Que, revestidas em brasa,
Ao menor toque me desfigura,
Abrindo-me uma ferida - sem cura;

Meus gritos de desespero são abafados
O ar, tão denso, não entra no peito
Caio por terra, contrafeito,
A esperança agora é um fardo,
Que mutila a alma dos fracassados;

A sede de sangue das feras
Continua insaciável, ininterrupta,
Enquanto uma força ainda mais bruta,
Pelos antigos chamada Quimera
Cuspia fogo e enxofre sobre a terra;

Tentávamos nos esconder, em vão,
Sob o solo, nos enterrando,
Cravando os dedos já sangrando
Na terra dura, seca e sem compaixão,
Cavando o próprio túmulo, sem caixão;

Da ponta dos dedos aos ombros
O ácido percorre estranhamente
Veios de queimaduras ardentes
Que, tal como um assombro,
Dão-me a aparência de um monstro;

DESENREDO

Onde estão as respostas que eu tinha?
Eu acho que sabia de muito mais...
A incerteza nunca me consumia
Eu era seguro, me sentia em paz;

Quando foi que tudo mudou?
Eu não vi a estrada se curvar...
Será que eu mudei quem sou?
Quando será que vou acordar?

Eu não quero ser insensível!
Gosto de ser como eu era...
Assim eu me sinto invisível,
Ou desarmado numa guerra...

Já pensei que eu tinha asas
Hoje, estou mais lúcido.
Ainda me transformo, na raiva,
Que some, mas não de súbito;

Mas não sei se eu era feliz
(Só me lembro de coisas tristes)
Também não digo que fui infeliz
Isso não me consiste!

É bem verdade que às vezes
O vazio me toma por completo.
E durante longos meses
 Eu fico a esmo e sem teto...

Tem sido muito difícil me abrir
Eu mesmo já não me dou ouvidos.
Talvez a vida que eu vivi
Tenha, aos poucos, me consumido;

Ficar em paz comigo mesmo,
Em paz com o mundo que me rodeia,
Será um sonho ermo?
Será ópio em minhas veias?

Porém, não é tão fácil se enganar
Mentir para si mesmo não é uma saída!
Embora eu goste de sonhar
Isso não facilita em nada minha vida...

ICOGNICÍVEL

O tempo parece correr desenfreado
E me afasta da vida que eu sonhei.
Os tesouros que um dia eu tinha logrado
Não fazem parte do futuro que plantei;

Quantas chances eu tive de ser Rei?
Será que eu não pesei sobre esse chão?
Onde está a força que eu nunca usei?
Não é ela quem faz bater meu coração?

PRAZERES CARNAIS

Eu não tenho essas necessidades mundanas
Talvez a vaidade seja meu único Mal.
Por vezes fico com a mente insana
Mas isso é de um outro Eu, surreal;

Sempre! Sempre fui dado a contradições
A pele sensível cobrindo um coração sombrio
E mesmo enfrentando ferozes leões
Nada era mais que Eu tão frio;

Eu não me nego aos prazeres carnais
Porém não sinto falta de tê-los.
Apesar de em vários sonhos matinais
Eu sentir a eletricidade em meus pelos;

Do mesmo modo não me assombram os vícios
Igualmente minha vontade os modera.
Em minha Alma não existe litígio
Mas do corpo é isso que o mundo espera;

Talvez Eu não seja desse universo
Ou apenas não me corrompi completamente.
Porque no espelho Eu vejo o inverso
Do vazio que meu espírito sente;

Será que a liberdade da Alma é a resposta?
Porque longe das substâncias talvez haja paz.
A vida e suas leis impostas,
A matéria realmente não me satisfaz.

SINTOMAS DE BLAKE

"Durante a noite, quando meu espírito se renova,
As portas da percepção são derrubadas."


Por quantas vezes de caminhos tortuosos
Desviei-me por puro cansaço?
Ludibriado por mundanos gozos
Deixeis de lado meu cetro de aço;

A vida terrena explodia em cores
Prendia minha razão em correntes
Era causa e cura de falsas dores
Tornei-me vazio, infinitamente;

Os quatro estados da tranquilidade
Faziam-me refém, sequencialmente,
Apenas a central sensibilidade
Lembrava-me quem Eu era realmente.

OS DEUSES PRIMORDIAIS

_Por Esíodo

Sim, Bem primeiro nasceu Caos, depois também Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre, dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado, e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias, e Eros: o mais belo entre deuses imortais, solta-membros, dos deuses todos e dos homens todos ela doma no peito o espírito e a prudente vontade.
Do Caos, Érebo e Noite negra nasceram. Da Noite, aliás, Éter e Dia nasceram, gerou-os, fecunda, unida a Érebo em amor.
Terra primeiro pariu, igual a si mesma  Céu constelado, para cercá-la toda ao redor e ser, aos deuses venturosos, irresvalável sempre. Pariu altas Montanhas, belos abrigos das deusas-ninfas que moram nas montanhas frondosas. E pariu a infecunda planície impetuosa de ondas, o Mar, sem o desejoso amor. Depois pariu do coito com o Céu: Oceano de fundos redemoinhos e Coios e Crios e Hipérion e Jápeto e Téia e Réia e Têmis e Memória e Febe de áurea coroa e Tétis amorosa. E após com ótimas armas Cronos de curvo pensar, filho mais terrível: detestou o florescente pai.
Pariu ainda os Ciclopes de soberbo coração: Trovão, Relâmpago e Arges de violento ânimo que a Zeus deram o trovão e forjaram o raio. Eles no mais eram comparáveis aos deuses, único olho bem no meio repousava na fronte. Ciclopes denominava-os o nome, porque neles circular olho sozinho repousava na fronte. Vigor, violência e engenho possuíam na ação.
Outros ainda da Terra e do Céu nasceram, três filhos enormes, violentos, não nomeáveis. Cotos, Briareu e Gigos, assombrosos filhos. Deles, eram cem braços que saltavam dos ombros, improximáveis; cabeças de cada um cinquenta brotavam dos ombros, sobre os grossos membros. Vigor sem limite, poderoso na enorme forma.