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quinta-feira, 12 de julho de 2018

Lembranças de minha infância I

A história que vou contar agora não é bonita nem requintada, é apenas fria e dolorosa, como a verdade é!
Quando eu era criança, aos quatro anos de idade, eu costumava brincar no quintal de minha casa. Lá eu cavava e enterrava meus insetos de estimação, alguns ainda vivos, é verdade. Eu ficava bastante tempo esperando algum deles sair, o que não era raro, só para enterrá-los de novo. Os insetos são seres muito resistentes, por isso, às vezes, eu arrancava algumas de suas patas para dificultar sua fuga, outras vezes eu simplesmente tirava-lhes todos os membros, e lhes deixava apenas com a cabeça para fora, enquanto eles se contorciam desesperados, com medo. Meus insetos preferidos eram os gafanhotos, grandes, mais fáceis de pegar que os grilos, menores e mais ágeis. Às vezes eu pegava um besouro qualquer e o prendia ao chão com um palito de dente transpassado no seu tronco. Quando se é criança e não tem brinquedos precisa-se usar a imaginação. E foi justamente isso que me deixou em maus lençóis.
Numa tarde de inverno, enquanto eu brincava inocentemente com meus insetos, não percebi o dia indo embora e deixando o rastro rubro nos céus, quando de repente um grito me levantou aflito da minha labuta. Quando ergui meus olhos eu vi, uma rasga-mortalha em voos circulares que descia cada vez mais em minha direção. Antes que ela pousasse no telhado do banheiro outra aparição me chamou a atenção. Enquanto o pássaro gritava sua canção funesta um corpo balançava a minha frente, suspenso apenas por uma corda envolta em seu pescoço. Nesse instante o mundo mergulhou em trevas e tudo deixara de existir. Apenas o corpo, o pássaro e eu existíamos. Eu não tinha voz para gritar. Só a rasga mortalha quebrava o silêncio. E o corpo pendurado, não estava inerte. Ele tinha a boca costurada e as mãos também amarradas, a pele era branca como cinzas de carvão, mas seus olhos... esses tinham mais vida que eu naquele momento. E olhava para mim, me fitando com ar de reprovação. Os olhos vermelhos refletiam o céu em chamas e todo o resto era breu.
Fui encontrado deitado no chão do quintal por minha mãe, apenas dormindo. Cheguei a pensar que tudo não passara de um sonho, que minha mente só me pregou uma peça naquela tarde e que o cansaço me perturbou. Ledo engano, embuste do destino.
À noite, naquele mesmo dia, o pássaro rasgou seu canto uma vez mais. À beira da porta dos fundos ele me chamava, batendo na porta com seu bico. Eu levantava aturdido da cama, buscando abrigo no quarto de meus pais. O medo era tamanho que não conseguia segurar a urina. Voltei a ter dois anos de idade e queria dormir com meus pais. Passei a ser sonâmbulo e saia de casa sozinho no meio da madrugada, e era encontrado por vizinhos que acordavam meus pais. Passou-se alguns anos e todas as noites era o mesmo quadro: batidas na porta, o canto do pássaro e o frio que cortava minha alma. Histórias de Lobisomem, vampiros e monstros aquáticos não me afetavam.  Mas a lembrança do homem enforcado estava sempre comigo.
Certa madrugada, eu atendi o chamado do pássaro negro e olhei pela fresta da porta. Lá estava ele, o corpo pendurado, balançado suavemente pela brisa noturna. Nenhum sinal do pássaro a não ser seu canto, rasgando a noite fria.
Parei de me impressionar com o sobrenatural ainda jovem. Convivo com o inexplicável desde então. Quanto ao homem na forca, talvez só o encontre novamente quando chegar minha hora derradeira, quando o peso da vida não for mais suportável e me deixe pender por uma corda para que seja meu corpo o único fardo suspenso no ar.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Retrato

Eu me ajoelho no chão do banheiro,
Peço a Deus que me ajude uma vez mais
Não antes de ser tomado pelo desespero
A dor de um coração que nunca está em paz;

Constantemente sou tomado pela insônia
Se eu durmo, me assolam os pesadelos
Engulo comprimidos, álcool, misturo à amônia...
Meus ídolos nunca foram os melhores modelos;

Meu estômago queima, não respiro
O maior veneno, ainda assim, sou eu.
Penso em resolver tudo com um tiro
Mas não recebo permissão do meu Deus;

Ele disse que eu preciso sentir e sofrer
O mesmo tanto quanto eu impingi dor
O perdão precisaria vir de você
E mesmo assim não me livraria de quem sou:

Um nada, um arrogante, egoísta e mentiroso
Usurpador de tudo que possuo.
Das batalhas que travei não mereço despojo
Devo ser abandonado, sem amor e nu.

MINHA LEI



Eu preparei o teu fígado com vinagre e sal
E para os porcos joguei o teu coração.
Já bebi, antes, o sangue de seres do mal
Mas o teu prefiro derramar pelo chão;

É certo que a Terra se envenenará
Mas da mancha negra uma erva irá crescer
Daninha, feito víbora, sufocando tudo que alcançar,
Com tua alma aprisionada sempre a sofrer;

Teus ossos, agora limpos, pela fome dos cães,
Serão triturados com teu fígado há muito cozido.
E nos pesadelos de tua mãe
O teu crânio, repetidamente, sendo partido;

Maldito! Grita a Terra que teu sangue bebeu.
É chegada a hora de arrancar-te do solo.
E quando fecham-se os olhos de Deus
Mais três entes queridos teus eu degolo;

O sangue destes misturam-se as folhas da erva.
Teu fígado nos ossos foi temperado.
Tua alma ainda agoniza na Treva.
Este é o presente que Satã tem esperado;

Sem cerimônia alguma, ele a mim se apresenta,
Devora o banquete que eu, caprichosamente, lhe preparei.
Tua alma, agora, conhecerás verdadeira tormenta
Esmagada, eternamente sem trégua, pelos punhos da minha Lei!

Alquimista

A minha busca é uma transmutação invisível
Elevação da Alma pela Alquimia transcendental.
O encontro com o mundo indivisível
Que une os átomos na Força Primordial;

Eterno sonhador, também sou pastor de nuvens
Mesmo que seja eu que me perca no horizonte.
E ainda que as águas se turvem
Eu atravesso Estígios e Aquerontes;

Nem sempre escapo dos labirintos que ergui
Algumas vezes, até precipito-me no mar.
Descendo de Anunnakis e Anakins
Talvez por isso nunca encontrei meu lugar.

sábado, 20 de maio de 2017

निर्मित

Dizem que o sofrimento nos tornam mais humanos
Mas o que dizer quando causamos essa dor?
Causar a própria destruição é insano
É tão contrário a si e ausente de Amor
Como se o espírito estivesse em profundo topor.

Todo chão em que piso é feito de mágoa
Pelos punhos cerrados, quebrei o meu coração.
Entre os dedos, o futuro se esvai, feito água
Como reconstruir o que esmaguei com minhas mãos?
O que fazer para merecer o seu perdão?

O que aconteceu com minha pureza infantil?
Não há passo que eu dê ausente de culpa
Como restaurar a Alma que tornou-se vil
Se o que me resta são sombras e Tulpas?
Para os males que causei não existe desculpas.

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sábado, 6 de maio de 2017

Lar

Eu caminhei até os pés sangrarem.
Não olhei para trás um momento sequer.
Como se fosse movido à engrenagens
Esmaguei meus sonhos e minha fé;

Deus me reprovava a todo instante.
A amargura destruindo a minha alma.
Mais uma vez de mim mesmo distante,
Consciência inquieta, não havia calma;

Minhas mãos tornaram-se pesadas e frias.
Frieza que congelou o meu coração.
Tornou-se escuro também o dia,
Não havia paz, impensável o perdão;

Eu pedi clemência e uma segunda chance,
Ciente que demônios devem queimar.
Nos punhos ficaram as marcas de sangue.
Além do Inferno, não mereço outro lar.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

FRAGMATAREDESTRUIR



(Killrendestroyfrag - B.a.r.f. - versão de Cícero Silveira)

Ele não pode mais esperar
O confronto se aproxima
O futuro da raça esquecida
Nas mãos de Deus, mentiras.

O maioral saca sua arma
Seu grito de guerra é forte
Seu ataque é selvagem
Seu gancho é o beijo da Morte

Seu coração bate como um atirador
Jamais sentiu remorso do que fez
Ele corta, ele esmaga, ele mata
Mais uma vez, mais uma vez

Racha, quebra, atravessa
Amputa, lacera, castra
Talho, ensanguentado, carnificina
Abate, estropia, massacra

De monte os cadáveres caem
Sua arma e corpo, como um, estão unidos
Perdendo sua identidade
Hinos sagrados trovejam em seus ouvidos

Ele não é mais um homem
Ele é a essência universal
Ele é a encarnação da Morte
Na sua face um sorriso mortal

Racha, quebra, atravessa
Amputa, lacera, castra
Talho, ensanguentado, carnificina
Abate, estropia, massacra

Em seis dias, o clique de sua arma vazia
Anuncia o genocídio com certeza
O fedor de corpos apodrecidos
Nunca mais deixará a atmosfera do planeta

O fedor agora e sempre
Tira o seu fôlego

Fragmataredestruir