A história que vou contar agora não é bonita nem requintada, é apenas fria e dolorosa, como a verdade é!
Quando eu era criança, aos quatro anos de idade, eu costumava brincar no quintal de minha casa. Lá eu cavava e enterrava meus insetos de estimação, alguns ainda vivos, é verdade. Eu ficava bastante tempo esperando algum deles sair, o que não era raro, só para enterrá-los de novo. Os insetos são seres muito resistentes, por isso, às vezes, eu arrancava algumas de suas patas para dificultar sua fuga, outras vezes eu simplesmente tirava-lhes todos os membros, e lhes deixava apenas com a cabeça para fora, enquanto eles se contorciam desesperados, com medo. Meus insetos preferidos eram os gafanhotos, grandes, mais fáceis de pegar que os grilos, menores e mais ágeis. Às vezes eu pegava um besouro qualquer e o prendia ao chão com um palito de dente transpassado no seu tronco. Quando se é criança e não tem brinquedos precisa-se usar a imaginação. E foi justamente isso que me deixou em maus lençóis.
Numa tarde de inverno, enquanto eu brincava inocentemente com meus insetos, não percebi o dia indo embora e deixando o rastro rubro nos céus, quando de repente um grito me levantou aflito da minha labuta. Quando ergui meus olhos eu vi, uma rasga-mortalha em voos circulares que descia cada vez mais em minha direção. Antes que ela pousasse no telhado do banheiro outra aparição me chamou a atenção. Enquanto o pássaro gritava sua canção funesta um corpo balançava a minha frente, suspenso apenas por uma corda envolta em seu pescoço. Nesse instante o mundo mergulhou em trevas e tudo deixara de existir. Apenas o corpo, o pássaro e eu existíamos. Eu não tinha voz para gritar. Só a rasga mortalha quebrava o silêncio. E o corpo pendurado, não estava inerte. Ele tinha a boca costurada e as mãos também amarradas, a pele era branca como cinzas de carvão, mas seus olhos... esses tinham mais vida que eu naquele momento. E olhava para mim, me fitando com ar de reprovação. Os olhos vermelhos refletiam o céu em chamas e todo o resto era breu.
Fui encontrado deitado no chão do quintal por minha mãe, apenas dormindo. Cheguei a pensar que tudo não passara de um sonho, que minha mente só me pregou uma peça naquela tarde e que o cansaço me perturbou. Ledo engano, embuste do destino.
À noite, naquele mesmo dia, o pássaro rasgou seu canto uma vez mais. À beira da porta dos fundos ele me chamava, batendo na porta com seu bico. Eu levantava aturdido da cama, buscando abrigo no quarto de meus pais. O medo era tamanho que não conseguia segurar a urina. Voltei a ter dois anos de idade e queria dormir com meus pais. Passei a ser sonâmbulo e saia de casa sozinho no meio da madrugada, e era encontrado por vizinhos que acordavam meus pais. Passou-se alguns anos e todas as noites era o mesmo quadro: batidas na porta, o canto do pássaro e o frio que cortava minha alma. Histórias de Lobisomem, vampiros e monstros aquáticos não me afetavam. Mas a lembrança do homem enforcado estava sempre comigo.
Certa madrugada, eu atendi o chamado do pássaro negro e olhei pela fresta da porta. Lá estava ele, o corpo pendurado, balançado suavemente pela brisa noturna. Nenhum sinal do pássaro a não ser seu canto, rasgando a noite fria.
Parei de me impressionar com o sobrenatural ainda jovem. Convivo com o inexplicável desde então. Quanto ao homem na forca, talvez só o encontre novamente quando chegar minha hora derradeira, quando o peso da vida não for mais suportável e me deixe pender por uma corda para que seja meu corpo o único fardo suspenso no ar.
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