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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

DESERTO



Num deserto eu tenho estado desde sempre.
O horizonte se confunde com o céu, sem estrelas.
Algumas vezes me deixei sorrir, de esperança.
Outras vezes, de tão escuro, não pude vê-las.

Mas eu me acostumei, com o deserto,
com a solidão. Um só, nós nos tornamos.
A vida me fez assim: de armadura,
fechado até mesmo para quem amo.

Superficialmente tornei-me frio e até cruel.
Mas insensível o meu coração nunca foi.
Por dentro, morri algumas vezes e só Deus sabe
como foi difícil ressuscitar depois.

E tenho sido assim desde então: Só
Porque não sei viver, não sei amar, não sei fingir.
O destino de pessoas como eu: o deserto
e o esquecimento depois de partir.

domingo, 4 de outubro de 2015

KARMA

Tu abres mão do Livre-arbítrio
Quando impões, sobre o próximo, tua vontade.
Absorves, em ti, o suplício
Infligido sob a sombra da maldade.

A Lei Cabalística se cumprirá
Serei, eu mesmo, o teu carrasco.
Antes de morrer, sofrerás
De ti até porcos sentirão asco.

Aqui tu fazes, aqui mesmo tu pagas.
Teus olhos serão arrancados a ferro.
Teu espírito perdido nas plagas,
Queimará no fogo do Inferno.

Lâminas libertarão tua dor.
Tuas vísceras expostas - devoro teus rins.
tua face transbordando pavor.
Todos os teus ossos quebrados por mim.

Nos teus olhos, agora, o arrependimento.
Eu atormento e dilacero a tua alma.
Sofrimento é pago com sofrimento.
Tuas lágrimas não compensarão o teu Karma!

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

LIBERDADE IMPOSTA

Eu tinha um pássaro nas mãos
que não me cabia possuir.
Dedos eram grades, uma prisão
que o impediam de partir;

Eu, dependente, o prendia.
Ele, feito tolo, aceitava.
Mas apesar da alegria
meu coração se envergonhava;

Assim sendo, eu o libertei.
Mas o tolo pássaro não partiu.
Eu, louco então, o esmaguei
pois a ira me consumiu;

Enquanto o sangue escorria
o desespero me assolou.
A minha mão suja tremia
_Por que você não voou?

_Pássaro idiota! - e a cabeça
desprendia do amolgado corpo.
E como numa tragédia grega
o vivo é justificado pelo morto.

REOBOTE

A chuva molha todo o pátio,
As árvores góticas balançam ao vento
E do centro deste átrio
Voa solto, para longe, meu pensamento.

Lembro-me de quando não fui sincero
E dos pecados que moldaram quem sou.
Por dentro eu me desespero
Pelo pouco espírito que me sobrou.

Já não vejo a linha tênue que nos separa
do que é certo, errado ou justo.
O mundo real já não nos ampara
E assim vamos vivendo, a muito custo.

Soneto Para Uma Alma Perdida

Ela não orou antes de dormir
e o Demônio veio uma vez mais.
Incrível! Sou eu quem perco a paz
Porque sei o que está por vir;

O seu câncer a crescer e destruir
a sua alma! Eu nada faço.
Se não fosse o nosso laço
eu poderia até sorrir;

Uma vez, eu lhe disse: "Cuidado
com o homem do olhar de cobra!"
Ele vai lhe matar e as sobras

serão lixo e resto putrefato.
É só isso que a vida nos cobra:
A verdade, não o seu caráter falsificado.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

À BEIRA DO ESTIGE


Não mereço o céu, não mereço o inferno!
Não pesei sobre a terra em que piso.
Todos os dias, do verão ao inverno,
Nem tristezas, nem sorrisos;

Eu não sei o que é ajudar
Também Não sei se já fiz alguém cair.
Será que Eu fiz alguém sangrar?
Não me lembro de ter feito alguém sorrir;

Eu fui já antídoto ou mesmo veneno?
Acho que fui neutro, invisível demais.
Porque não vi nenhum aceno.
Nenhum barco esperava-me no cais.

DE MIM MESMO

Hoje, eu ando distraído, impreciso.
A idade acumulou-se em minhas costas.
E, apesar de meu sorriso,
Pesa-me a dádiva imposta.

Eu prefiro acreditar que foi o tempo
O responsável pela mudança de meu ser.
Partes de minha vida eu não lembro,
Esqueci-me que eu nunca fui de esquecer.

O mais triste é que eu mudei de tal forma
Que até o mundo pareceu mudar.
Assim, enquanto o mundo se deforma,
Eu me vejo, também, a me deformar.

Mas confesso que não me preocupei.
Já não sofro mais como antes.
Quando de mim mesmo me ausentei
Até a dor ficou distante.