De Cícero Silveira
“Oh! Vós que entrais, abandonai toda a esperança!”
_Dante Alighieri
Certa noite, cansado e de pálpebras terrivelmente pesadas, caí num sono profundo, que em aparência lembrava a morte não fosse o fato de ainda respirar. O caso é que, não sei se por causa da exaustão, me vi adentrar num mundo fantasioso de devaneios. Não mais me encontrava em minha casa. Eu havia cruzado a fronteira do tempo e do espaço e estava agora numa realidade incompreensível para minha razão. Porém este lugar, este estado mental, levou o meu desgaste físico-psicológico para além dos limites suportáveis. Eu vivenciava o mais expressivo pesadelo de minha vida inerte. Soberbamente aterrorizavam o tempo e os muros titânicos que me cercavam até alturas infinitas. Em um desses muros havia um gigantesco relógio, velho e parado. Ver seus ponteiros inflexíveis era uma tortura para mim. Eu senti a loucura roçar nos meus pensamentos e como se fosse um animal acuado por terríveis feras procurei uma brecha por onde fugir. Ao passar por uma porta não encontrei o céu que conhecia, aliás, não encontrei céu algum! As paredes sufocantes ainda existiam. O desespero já tomava conta de minha alma e preces angustiadas jorravam de meus lábios, suplicando a Deus que me despertasse os sentidos. Eu corri por todo esse labirinto e sua forma era como a de um círculo, pois eu voltava sempre ao mesmo lugar. O chão deste lugar era coberto por lixo que exalava cheiros horríveis. Porém, foi neste chão podre que eu caí de joelhos, entregue ao acaso.
Como nunca antes, eu desejei morrer, porque eu sabia que a morte me traria de volta a vida (?), e com um pedaço de vidro apanhado do lixo talhei um profundo corte no meu pulso e antes mesmo do sangue jorrar eu senti uma dor terrível, que me fez perceber que talvez não fosse um sonho a final. Porém, sem pensar, deslizei o vidro no outro braço, e enquanto o chão tingia-se de vermelho-rubro os pensamentos corriam desordenados para então tudo tornar-se turvo. Até que, finalmente, trevas fosse minha única visão.
Não sei precisar quanto tempo fiquei inerte, mas não acordei em meu quarto como havia planejado, mas sim no mesmo inferno em que desfaleci ao tentar me libertar. Não existia em meus braços marcas sequer dos talhos que eu fiz. Eu acreditaria estar louco não fosse o sangue que continuava a manchar o chão. Enquanto tentava por ordem nos pensamentos uma torrente de lembranças transbordavam dos cantos mais recônditos da memória, e eram todas de momentos tristes e insuportáveis que haviam ficado enterradas no passado e que agora tomavam formas e se tornavam palpáveis como uma sombra feita de névoa negra que me engole e me sufoca e deixa meu corpo e mente como que avessados... Estou mesmo no Inferno!
Desespero, frio e uma vontade absurda de ser queimado, e enterrado, me assolam; O mundo girando numa velocidade terrível; Uma sensação de ter sido esquecido por Deus me dá o ímpeto de tentar mais uma vez o suicídio. Só que desta vez não para buscar liberdade, mas sim descanso. Corro mais que um animal furioso sem direção, quando me deparo, convenientemente, com um precipício. Este saciará minha vontade por paz. Eu me atiro, sem dar lugar a razão, no abismo insondável desejando ser partido em mil pedaços para nunca mais voltar a abrir os olhos neste mundo infernal. A queda é rápida e seca. A última coisa que eu escuto é o meu crânio se rachando para que meu cérebro possa se esparramar por sobre as pedras negras da salvação.
Quando tudo parecia terminado, meus olhos, sujos de lodo, se abrem dolorosamente me afastando do doce sabor do sono eterno que, aparentemente, não durou mais que o último. Antes não havia ficado cicatrizes em meus braços, porém, desta vez além da dor insuportável causada pela queda, minha cabeça se encontra aberta! Desde a fronte até pouco depois da nuca um talho jorra sangue continua e abundantemente, enquanto a massa encefálica, exposta, pulsa pressionando ainda mais o crânio rachado.
Eu me ergo e sinto meus ossos trincarem. Tento gritar de dor, mas só um grunhido se faz ouvir, isso por causa de minha língua que não se encontra mais em minha boca, foi arrancada com o impacto e só alguns dentes permaneceram, mas nenhum intacto. O sangue explode boca a fora quase me sufocando.
Ora andando, ora rastejando cruzo distâncias inimagináveis durante um tempo incalculável, e durante nenhum momento meu espírito teve paz. A dor física que eu sentia era nada comparada a angústia psicológica. Eu não sabia mais o que era coerência ou se isto não passava de uma palavra sem significado neste mundo, se é q existe outro – e eu sei que não existe. Tudo é Inferno e Inferno é tudo!
De repente o meu caminho é interrompido pelas águas sujas de um lago, o mais imundo que eu já vi. Seu odor causaria náuseas ao porco mais nojento que já pisou na face da terra. Como já citei, eu me encontrava num estado deplorável em que não conseguia distinguir o que era loucura ou lucidez, paranoia ou determinação. Assim, me despi de minhas roupas e com elas improvisei uma corda com a qual numa das pontas amarrei o meu pescoço e na outra a pedra mais pesada que pude erguer. O sangue ainda vertia de minha cabeça e com passos precisos me pus dentro do lago, me distanciando cada vez mais da margem. Já totalmente submerso continuei caminhando por mais um minuto ou cerca disso. Quando a vida reclamou por oxigênio larguei a pedra, que me puxou com ela para o fundo pantanoso do lago. Como se meu instinto lutasse contra minha vontade, minhas mãos descontroladas tentavam desatar o nó em meu pescoço, mas em vão, pois não havia mais força suficiente em meus dedos. A vista foi escurecendo e a dormência dominou os sentidos restantes. Enfim sentia a paz desejada.
Todavia, como quem acorda de um pesadelo meus olhos se abrem com pupilas dilatadas e quando tento aspirar vida para meus pulmões sinto minhas narinas se rasgarem como se uma barra de ferro as penetrasse. Antes mesmo que eu possa recordar o que aconteceu, água invade meu corpo torrencialmente. Sinto meu peito queimar, expandir e estourar. Sangue foge por minha boca, nariz e ouvido. A corda presa ainda em meu pescoço. A falta de ar perfurando minhas têmporas. Desespero e agonia se misturam ao meu túmulo aquático. E antes que eu faleça uma vez mais, uma última coisa me apavora mais que este suplício: Eu sei que acordarei de novo neste lugar, sangrando, agonizando e morrendo, sem de fato morrer.
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