Marcadores

sábado, 31 de março de 2012

NOITE CHUVOSA

De Cícero Silveira

“Ao menos aqui o meu trabalho não foi em vão”
_Edgar Allan Poe

Já era tarde da noite e chovia muito quando eu voltava para casa depois de mais um dia de aula. A rodovia que ligava a Faculdade à cidade era longa e deserta. Apesar do cansaço não me distraí em nenhum momento. De repente um farol alto de moto que vinha longe chamou minha atenção, pois cambaleava para ambos os lados da pista. Sabia que aquele condutor era um perigo proeminente, resolvi então diminuir a velocidade. Porém nem precisava tanto, porque o motoqueiro saiu da estrada e adentrou-se na mata costeira. Consegui ouvir o impacto de sua moto ao bater em uma árvore, talvez. Parei meu carro e pensei duas vezes se deveria ou não averiguar o acidente. Optei por ir, movido mais pela curiosidade, confesso, do que para ajudar o infeliz.
A moto estava totalmente destruída depois de haver trombado em uma rocha de pelo menos 1,7m de altura por 4,5 de comprimento, uma verdadeira parede. Deveria estar correndo a quase 100K/h a julgar pelo estado do veículo. Mas seu condutor, miserável sortudo, tinha caído metros antes do impacto. Seu aspecto era algo medonho, visivelmente se notava suas pernas quebradas, sendo que uma delas apresentava uma fratura exposta. O fêmur partira-se no meio e estava quase todo à mostra. O odor de álcool era forte, provando a embriaguez do infeliz. De repente ouço o moribundo balbuciar alguma coisa incompreensível. Chego mais perto para ouvir: “Me ajude...” – ele disse. A voz era perturbadoramente familiar apesar da pouca força com que falou. Retirei o capacete dele e para meu espanto era realmente um conhecido meu! Seu nome era Tomas Parkinson, um sujeitinho esnobe com quem eu nunca simpatizei. Na verdade já pensei odiar este inseto. Tínhamos alguns amigos em comum, mas a indiferença entre nós dois era mútua. Menos mal, assim eu não precisava me ressentir pelo que estava prestes a acontecer com o maldito. Houve dias em minha vida em que eu precisei me segurar para não fazer atrocidades que me trariam consequências desagradáveis, mesmo que o impulso feroz que arrebentava meu peito fosse quase impossível de ser freado eu tinha que morder o próprio lábio e me contentar com o gosto de meu próprio sangue na boca.
Quantas vezes eu já quis chegar armado no trabalho e disparar doze tiros na cabeça de cada um dos meus colegas de ofício, aqueles patifes insignificantes que me dão nojo. Porém naquela noite o destino parecia me sorrir. Aquele inútil jogado aos meus pés pela sua imbecilidade. Uma pena suas pernas estarem quebradas, queria eu mesmo fazer isto. Pelo menos ainda restam os braços, as costelas e por fim a cabeça. “Me ajude” ele dizia, e meu cinismo era visível em meu sorriso. Puxei o desgraçado pelos cabelos até próximo dos destroços de sua moto e nesse instante ele vomitou nos meus sapatos. Se eu pretendia me divertir um pouco com o diabo, a vontade passou a ser matá-lo de uma só pisada, e foi o que eu fiz, dei um chute na cabeça do vagabundo como se estivesse enxotando algum cachorro leproso, e era sangue que saia da sua boca agora. Infelizmente o impacto foi suficiente para desacordá-lo. Cheguei a pensar que o tinha matado, “Mas já?” – exclamei decepcionado. Peguei-o pelo braço e com ajuda do meu pé direito apoiado em suas costas, numa torção rápida, desloquei seu ombro. Ouvir o som de ossos secos fazendo “clack” foi como ouvir o riso de uma criança. Esperei alguns instantes mas o brinquedo não acordava. Já era quase meia noite, então resolvi me apressar em terminar o que comecei. Virei o corpo de modo que ficasse com o peito para cima e pisoteei seu tórax como se quisesse matar um inseto asqueroso, mas pisei com uma força quase suficiente para quebrar minha própria perna, e só quando senti os ossos cederem e afundar em seu peito e parecer como se eu pisasse em gelatina foi que fiquei satisfeito. Depois disso jorrava sangue em demasia de sua boca e aquilo me deixou ainda mais excitado. Procurei por uma pedra de peso significante para encerrar meu trabalho com dignidade e encontrei uma ovalada de aparência quase lapidada, pesava cerca de sete quilos, era perfeita!
Aproximei-me do cadáver e me ajoelhei junto a sua cabeça, parecendo que eu faria alguma oração pelo morto. “Satanás, se quiser, que cuide de sua alma, porco nojento!” – e com a pedra esmaguei o crânio do maldito, não precisei de mais que três pancadas para isso. Então uma tristeza me bateu, pois eu deveria ter conservado a cabeça inteira para remover o crânio e guardá-lo como recordação. Contudo, no fim das contas foi melhor assim. Além do mais eu tinha a pedra, e foi o que eu fiz, a levei para o carro e a coloquei no porta-malas e fui embora com a alma mais leve. A chuva continuava a cair e tornava a noite mais bela. Não é todo dia que temos a oportunidade de extravasar nossos problemas e aflições, por isso sei que aproveitei bem essa dádiva.
No dia seguinte estava em todos os noticiários: o jovem embriagado que perdeu o controle de sua moto e, após sair da estrada, estraçalhou-se todo junto com ela numa rocha,. “Onde essa juventude espera chegar agindo assim?” indagou um jornalista horrorizado. Eu olho para a pedra que descansa ao lado de minha cama e me rio por dentro de satisfação.


Fim

Nenhum comentário:

Postar um comentário