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sábado, 31 de março de 2012

MEU DEMÔNIO INTERIOR

De Cícero Silveira


Há certas faculdades mentais ainda não explicadas pela ciência humana, certos estados psicológicos insondáveis para homens comuns. Por isso não conseguem decifrar a mente de um suposto maníaco homicida, ou mesmo dos loucos. Não nego que até mesmo para mim foi difícil compreender tal natureza. Todavia em momentos específicos, minha mente adentra-se numa sucessão de pensamentos mais semelhantes a devaneios, alucinações, não fosse o fato de Eu mesmo coordenar, não os pensamentos, mas as sequências em que eles se apresentam, tal como se meu raciocínio decifrasse o ilógico, mas que ao mesmo tempo impossível de eu descrever fielmente o labirinto que leva ao logos. Porém, e se esses devaneios fossem reais?
Bem, tudo se iniciou numa manhã de sexta-feira, a primeira do segundo mês do ano passado, e desde então as lembranças daquele dia tem me acompanhado como um fantasma que não quer partir para seu devido além. Fazia frio e por isso custei a me levantar da cama, mas quando pus os pés descalços no assoalho, ainda mais gelado que aquela manhã, eu senti um calafrio que parecia ferir minha alma. Naquele momento eu soube que algo ruim estava para acontecer. Durante todo o dia vaguei aéreo, ausente de mim mesmo, como um prenúncio de que eu não pertencia mais a este mundo. Eu estava vazio.
Ao chegar à noite ainda me encontrava macilento, como quem bebera litros de um bom vinho. No silêncio de meu quarto apenas um leve odor de mofo se fazia sentir. De repente um barulho veio da cozinha, parecia o som de algum talher que caíra. De novo fui acometido por um calafrio, e este me tirou até mesmo o ar por alguns segundos. Não sei se fiquei assustado ou aturdido, ou se ainda estava ausente de meus sentidos normais. O certo é que eu me senti vagamente arrastado até a cozinha que estava mergulhada em trevas noturnas e dei de frente com um vulto que se crescia em minha direção. Seria impossível descrever a dor que me fincou na cabeça naquele instante, pois tão depressa quanto ela surgiu assim mesmo ela esvaiu-se. Mas tenho certeza que ela foi tão lancinante quanto uma barra de ferro, vermelho brasa, me transpassando de um ouvido ao outro por um décimo de segundo tão eterno quanto o fogo do Inferno. De repente tudo ficou negro e em paz, ausente de sensações. Eu não sentia, não era e não sabia, ou seja, Eu estava livre. Agora percebo o quão bom isto era.
Infelizmente (ou felizmente, ainda não sei ao certo) uma luz incômoda varreu toda aquela paz mística que me tornava um com Deus e me trouxe de volta a consciência. Contudo foi só isso que voltou, pois eu ainda não estava munido dos sentidos físicos, a não ser da visão. Minha casa ainda estava escura, mas conseguia vislumbrar cada canto dela. E apesar da consciência refeita não me assustei nenhum pouco com a figura de meu algoz que ainda empunhava a arma de suplício usada em mim. Era mesmo uma barra de ferro, mas não em brasa. Ele, certamente um ladrãozinho qualquer, parecia não me ver e Eu não conseguia me importar com isso, pois ainda tentava entender o que estava acontecendo quando percebi que ele parecia hipnotizado. Quando meus olhos encontraram o motivo de seu semblante estático todos meus sentidos antes ausentes se fizeram sentir, todos de uma vez, como uma torrente de um rio irado, que destrói represas e qualquer coisa que se encontre em seu caminho. Era para mim que ele olhava, mas não era eu quem estava lá. Um desespero indescritível tomou meu íntimo, eu não era capaz de compreender o que se passava. Eu estava a pouco mais de quatro metros de mim mesmo. Eu tentei falar algo, mas não encontrava ar, e isso não me sufocava. Eu havia abandonado meu próprio corpo que não estava morto, pois estava de pé, respirando sofregamente. Enquanto Eu, sem meu corpo, era só um espectro, preso entre dois mundos, sem saber ao certo a qual dos dois pertencia.
O invasor continuava paralisado, fitando meu corpo ensanguentado. Na altura da têmpora esquerda uma fenda mostrava parte do meu crânio. Certamente fui atingido ali por várias vezes depois de ser nocauteado. Com certeza foi o fato de eu ainda estar de pé que assustava meu carrasco (e isso me assustava agora também) e o impedia de incitar-se novamente sobre mim. Meu aspecto era horrível, desfigurado, pintado de vermelho-rubro, e uma ira que brotava dos meus olhos me deixava ainda mais animalesco, um demônio! Só podia ser essa a razão de meu corpo continuar vivo sem minha alma, um Demônio havia se apossado dele. De repente, como um chacal faminto, meu corpo investe contra o ladrão e este não oferece nenhuma reação. Unhas e dentes dilaceram o larápio, sangue e vísceras jorram em meio aos gritos da nova vítima, ossos são arrancados de dentro da carniça epilética. Seus gritos eram horripilantes, ainda assim pareciam insuficientes para descrever a dor que o dilacerava a alma. Eu, satisfeito, vislumbro a tudo e me sinto recompensado. Agora Eu poderia descansar em paz.
Tudo voltou a ficar negro e Eu mergulhei nesse mar de Trevas e me deixei ficar por quase uma eternidade. A maldita luz mais uma vez desequilibra a harmonia em que me encontrava. Abro os olhos, languidamente, como se tivesse dormido mil anos. Eu estava deitado no chão da cozinha, meus olhos fitavam o teto. Minha cabeça doía. Pus a mão em minha cabeça e senti uma cratera aberta transbordada de sangue coagulado. Eu estava vivo! Ao meu redor carne retalhada, ossos triturados e litros de sangue cobrindo o chão. Apenas a cabeça de meu inimigo resistiu à fúria demoníaca. Eu a ergui frente aos meus olhos e não contive a gargalhada desvairada e cínica que parecia vir do Inferno.

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