Está tudo
acertado, à noite eu arranco o crânio daquele desgraçado. Há muito tempo nutro
um ódio, quase que religioso, por este homem, que nem mesmo ouso pronunciar seu
nome. Ele mora aqui mesmo na vila, e dia e noite eu o observo. Sinto repulsa só
de lembrar. É um sujeito de quase quarenta anos, bigode desgrenhado e o ar de
safado o acompanha. É dono de algumas casas do cortiço, vive do dinheiro dos
aluguéis. Está sempre bêbado e incomodando os vizinhos, e vez ou outra, abusa
de mulheres. Suas vítimas são sempre aquelas que não tem quem as defenda. É
aparentado de um delegado, que faz vista grossa às denúncias. O bastardo
estuprou a irmã de um amigo, que não tem culhões para fazer justiça. Mas eu
disse para a imagem do menino Jesus, que está no colo de nossa Senhora: “Basta,
Senhor! Faz de mim um instrumento de sua justiça, e que meu ódio seja
justificado pela honra das inocentes que ele deflorou. Que a lâmina de minha
peixeira derrame o sangue desse filho de rameira igual as lágrimas das moças
que ainda hoje choram esperando pelo castigo do miserável. Que minha mão seja
guiada pela vontade do Pai, e que o fim do desgraçado seja igual aos impuros de
Sodoma.” Dito isto, um raio caiu no horizonte, em frente da minha soleira. Era a
resposta que eu esperava e Deus a deu-me. Hoje à noite o inferno vai receber
mais um hóspede.
O meu tio é
dono da bodega em que o bastardo compra seu suprimento de álcool. Todas as
tardes ele leva consigo uma garrafa de cachaça do Ceará. Hoje não seria
diferente. Mas esta garrafa será distinta. Desde menino que eu ajudo meu tio
nos afazeres do estabelecimento. Velho de sessenta e oito anos, sem filhos,
adotou-me quando eu tinha treze anos, logo após a morte de minha mãe, sua
sobrinha. Meu pai, nunca o conheci, talvez outro deflorador, que eu teria
prazer de mandar em pedaços para o inferno.
Criança sem
pai, sempre fui muito danado. Desde novinho dava problema pra minha mãe.
Adestrei-me com facas desde os nove anos. Nunca fui de ter amigos, mas ninguém
do bairro queria ser meu inimigo. Todavia, tudo mudou num inverno. Minha mãe
foi desiludida da vida. Pobrezinha que sempre sofreu, não suportou tantos
fardos. Pneumonia, tuberculose e, por fim, a morte. Naquele momento eu poderia
ter me tornado o que eu estava destinado a ser... o próprio Satanás. A vida não
poderia me dar pancada maior. Mas foi o inverso que aconteceu. Eu fui morar,
como já disse, com o tio de minha mãe. Homem profundamente religioso. Ele me
acolheu como um filho, e apesar da minha perda, encontrei paz. A raiva deu
lugar à contemplação. A fé surgida só me deixou mais forte. Depois de anos de
dedicação percebi que eu deveria ser a mão de deus aqui nessa terra de ninguém.
Não como Cristo, Paulo ou Moisés. Mas como Sansão, que destruía o que era do
inimigo, que queimava suas plantações, arrancava seus portões, tomava suas
mulheres e esmagava os adversários de Deus. Eu seria a mão que pune!
Já é alta a
noite, e como esperado, o bastardo vem a mim e pede sua bebida, entrego a
garrafa que eu trouxe comigo, destilada na noite anterior com uma mistura que
eu mesmo preparei. O gosto do ópio não seria notado facilmente, não misturado
ao álcool. Ele bebe um trago e joga o dinheiro no balcão com desdém. Vai embora
esbarrando nos outros que parecem temer um cão raivoso. Eu, pelo contrário, sinto
o gosto de sangue na boca, lembro da teia que tramei e pego minha peixeira, me
dirijo ao meu tio, que está encostado em uma das portas da bodega.
_Tio, é hoje
que vou resolver aquele negócio. Sua benção...
_Deus te
acompanhe e alumie suas escolhas, e saiba que o povo irá falar, meu filho.
_Depois eu
vou sair com o irmão dela. Vou aproveitar a última noite de passarinho
solitário.
_Se fosse
outra mulher, o padre aceitaria fazer na igreja.
_Ela teve
alguma culpa pelo que houve?
_De jeito
nenhum. Mas você sabe como as coisas são. Seu coração é bom. Você vai sofrer
por causa disso. Vai logo pra não chegar tão tarde lá. – disse ele
passando a mão na minha cabeça.
Ao sair do
cortiço virei a esquina e corri para dar a volta. A casa do desgraçado dá nos
fundos de um terreno baldio na rua de trás. No terreno o mato é alto e a noite
ajuda a encobrir minhas ações. Pulo o muro a porta de trás está fechada. Sem
problemas. Não vejo trinco, então deve ter um ferrolho do outro lado. Madeira
velha, da porta e da soleira. Um empurrão firme e o ferrolho salta no ar.
Rapidamente entro e escoro a porta atrás de mim. Com respiração acelerada
confiro dois quartos antes de o encontrar na sala. Como esperado, minha vítima
jaz no chão, balbuciando uma língua comum dos embriagados. Dou-lhe um soco e
sua mandíbula desprende, queria desacordá-lo, mas foi melhor. Mais fácil de
cortar sua língua de cobra. Enfio a ponta do facão em sua boca por baixo da
língua e o giro da peixeira arranca um dente também. A língua sai tão fácil
quanto se rasga um pano em trapos. Não contei com o sangue, quase afogando o
infeliz. Ele acorda desesperado enquanto enfio um pedaço de minha camisa na sua
guela. O efeito do ópio já está passado. Ainda bem. Não queria que fosse tão
fácil. Ele se debate desesperado sem entender o que está acontecendo. Ele não
tem voz. Em um só movimento arranco sua orelha e um pedaço do rosto. Só agora
ele me olha no rosto, chorando, desesperado. Sangue e lágrimas se misturam. Ele
treme, geme e se deita como um cão sarnento. Nesse momento lembro das palavras
do meu tio: “Seu coração é bom”. Eu chuto o miserável nas costelas, nos seus
braços erguidos, sua barriga. Ele se encolhe. Piso suas mãos até os dedos
quebrarem. O pano cai de sua boca ele consegue grunhir, alto como um cão. Não
tenho tempo, o arrasto pela casa, com a mão livre pego o ferrolho e enfio na
sua boca. Ele faz menção de o retirar. Eu quebro sua mão. Ele chora sangue. Um
milagre! Eu volto para a sala e pego o facão. Com golpes frenéticos arranco
seus braços, ele ainda se contorce. Levanto uma de suas pernas e sinto o fedor
de mijo e merda.
_Você se lembra
de Ana? – e enfio o facão em suas virilhas até acertar o osso. Giro a lâmina
forçando o desgraçado a se contorcer ainda mais. Já não ligo para seus gemidos.
Os vizinhos devem estar pensando que ele copula com as rameiras que ele paga
por diversão. Elas nunca voltam a sair com ele, exceto quando obrigadas pelos
seus patrões. Como ninguém ao redor se pronuncia me solto um pouco mais. O
porco sangra sem parar, logo ele morrerá. Jogo água no desgraçado e ele parece
recobrar os sentidos. Arrependi-me de lhe tirar a língua. Queria ouvir ele
dizer o meu nome antes de morrer. Ele vomita sangue e água. Pulmões perfurados,
costelas partidas. É o fim. Dizem que não se chuta cachorro morto, então pelo
menos vou chutá-lo até ele morrer.
_Um! Dois! Três!
– seus dentes voam.
Ele já era.
Não tem mais graça. Levanto sua cabeça e enterro o facão em sua boca. Ele dá
espasmos, me suja com seu sangue nojento. Deve ter engolido o ferrolho. Animal
imundo!
Eu me lavo e
limpo também a peixeira. Pulo o muro e parto em direção à casa de Ana. Demora
pouco. Silas é quem me recebe.
_O que faz
aqui tão tarde?
_Vim ver a Ana.
Lembra-se do que lhe falei? Vou leva-la embora daqui.
_Para aquele
cortiço? Onde tudo aconteceu? Saímos de lá para tentar esquecer.
_Seus pais
estão acordados?
_Sim. Eu
falei para eles dos seus planos. Minha mãe chorou. Disse que você tem um bom
coração.
Eu entrei na
casa e os pais dele estavam na sala. Como eles já sabiam o que vim fazer ali,
só pedi a permissão para levar Ana comigo e eles a chamaram. Ela consentiu que queria isso também. O pai dela disse para ir nessa mesma noite.
_Já era
tempo dela ir embora. - disse o pai virando o rosto – Ela só me trouxe
vergonha.
Percebi que
muitos assassinos são justificados pelas vítimas. Aquele homem me deu motivo
para continuar matando. Mas não hoje.
_Não pegue
nada! Vamos embora. – falei com repulsa, olhando para aqueles hipócritas que
não fizeram o que deveriam.
Era muito
tarde. Nós caminhávamos devagar, contemplando a noite. Fomos pelo caminho mais
longo. Eu sabia do terror que ela passava naquela casa, sendo acusada por algo
que ela não provocou. Ouço as palavras dos que disseram “você tem um bom
coração” – tolos! Eu não tenho coração.
_O porco
sofreu? – perguntou ela.
_Fiz o
possível para ele desejar estar no inferno. No fim das contas tenho certeza que
ele pagou o preço.
_Quero que
me conte tudo. Cada detalhe.
Eu sabia que
havia encontrado uma parceira, um álibi. Eu continuaria a fazer o que comecei.
E tenho alguém tão sem coração quanto eu.

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