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sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Alma Gêmea


Está tudo acertado, à noite eu arranco o crânio daquele desgraçado. Há muito tempo nutro um ódio, quase que religioso, por este homem, que nem mesmo ouso pronunciar seu nome. Ele mora aqui mesmo na vila, e dia e noite eu o observo. Sinto repulsa só de lembrar. É um sujeito de quase quarenta anos, bigode desgrenhado e o ar de safado o acompanha. É dono de algumas casas do cortiço, vive do dinheiro dos aluguéis. Está sempre bêbado e incomodando os vizinhos, e vez ou outra, abusa de mulheres. Suas vítimas são sempre aquelas que não tem quem as defenda. É aparentado de um delegado, que faz vista grossa às denúncias. O bastardo estuprou a irmã de um amigo, que não tem culhões para fazer justiça. Mas eu disse para a imagem do menino Jesus, que está no colo de nossa Senhora: “Basta, Senhor! Faz de mim um instrumento de sua justiça, e que meu ódio seja justificado pela honra das inocentes que ele deflorou. Que a lâmina de minha peixeira derrame o sangue desse filho de rameira igual as lágrimas das moças que ainda hoje choram esperando pelo castigo do miserável. Que minha mão seja guiada pela vontade do Pai, e que o fim do desgraçado seja igual aos impuros de Sodoma.” Dito isto, um raio caiu no horizonte, em frente da minha soleira. Era a resposta que eu esperava e Deus a deu-me. Hoje à noite o inferno vai receber mais um hóspede.
O meu tio é dono da bodega em que o bastardo compra seu suprimento de álcool. Todas as tardes ele leva consigo uma garrafa de cachaça do Ceará. Hoje não seria diferente. Mas esta garrafa será distinta. Desde menino que eu ajudo meu tio nos afazeres do estabelecimento. Velho de sessenta e oito anos, sem filhos, adotou-me quando eu tinha treze anos, logo após a morte de minha mãe, sua sobrinha. Meu pai, nunca o conheci, talvez outro deflorador, que eu teria prazer de mandar em pedaços para o inferno.
Criança sem pai, sempre fui muito danado. Desde novinho dava problema pra minha mãe. Adestrei-me com facas desde os nove anos. Nunca fui de ter amigos, mas ninguém do bairro queria ser meu inimigo. Todavia, tudo mudou num inverno. Minha mãe foi desiludida da vida. Pobrezinha que sempre sofreu, não suportou tantos fardos. Pneumonia, tuberculose e, por fim, a morte. Naquele momento eu poderia ter me tornado o que eu estava destinado a ser... o próprio Satanás. A vida não poderia me dar pancada maior. Mas foi o inverso que aconteceu. Eu fui morar, como já disse, com o tio de minha mãe. Homem profundamente religioso. Ele me acolheu como um filho, e apesar da minha perda, encontrei paz. A raiva deu lugar à contemplação. A fé surgida só me deixou mais forte. Depois de anos de dedicação percebi que eu deveria ser a mão de deus aqui nessa terra de ninguém. Não como Cristo, Paulo ou Moisés. Mas como Sansão, que destruía o que era do inimigo, que queimava suas plantações, arrancava seus portões, tomava suas mulheres e esmagava os adversários de Deus. Eu seria a mão que pune!
Já é alta a noite, e como esperado, o bastardo vem a mim e pede sua bebida, entrego a garrafa que eu trouxe comigo, destilada na noite anterior com uma mistura que eu mesmo preparei. O gosto do ópio não seria notado facilmente, não misturado ao álcool. Ele bebe um trago e joga o dinheiro no balcão com desdém. Vai embora esbarrando nos outros que parecem temer um cão raivoso. Eu, pelo contrário, sinto o gosto de sangue na boca, lembro da teia que tramei e pego minha peixeira, me dirijo ao meu tio, que está encostado em uma das portas da bodega.
_Tio, é hoje que vou resolver aquele negócio. Sua benção...
_Deus te acompanhe e alumie suas escolhas, e saiba que o povo irá falar, meu filho.
_Depois eu vou sair com o irmão dela. Vou aproveitar a última noite de passarinho solitário.
_Se fosse outra mulher, o padre aceitaria fazer na igreja.
_Ela teve alguma culpa pelo que houve?
_De jeito nenhum. Mas você sabe como as coisas são. Seu coração é bom. Você vai sofrer por causa disso. Vai logo pra não chegar tão tarde lá. – disse ele passando a mão na minha cabeça.
Ao sair do cortiço virei a esquina e corri para dar a volta. A casa do desgraçado dá nos fundos de um terreno baldio na rua de trás. No terreno o mato é alto e a noite ajuda a encobrir minhas ações. Pulo o muro a porta de trás está fechada. Sem problemas. Não vejo trinco, então deve ter um ferrolho do outro lado. Madeira velha, da porta e da soleira. Um empurrão firme e o ferrolho salta no ar. Rapidamente entro e escoro a porta atrás de mim. Com respiração acelerada confiro dois quartos antes de o encontrar na sala. Como esperado, minha vítima jaz no chão, balbuciando uma língua comum dos embriagados. Dou-lhe um soco e sua mandíbula desprende, queria desacordá-lo, mas foi melhor. Mais fácil de cortar sua língua de cobra. Enfio a ponta do facão em sua boca por baixo da língua e o giro da peixeira arranca um dente também. A língua sai tão fácil quanto se rasga um pano em trapos. Não contei com o sangue, quase afogando o infeliz. Ele acorda desesperado enquanto enfio um pedaço de minha camisa na sua guela. O efeito do ópio já está passado. Ainda bem. Não queria que fosse tão fácil. Ele se debate desesperado sem entender o que está acontecendo. Ele não tem voz. Em um só movimento arranco sua orelha e um pedaço do rosto. Só agora ele me olha no rosto, chorando, desesperado. Sangue e lágrimas se misturam. Ele treme, geme e se deita como um cão sarnento. Nesse momento lembro das palavras do meu tio: “Seu coração é bom”. Eu chuto o miserável nas costelas, nos seus braços erguidos, sua barriga. Ele se encolhe. Piso suas mãos até os dedos quebrarem. O pano cai de sua boca ele consegue grunhir, alto como um cão. Não tenho tempo, o arrasto pela casa, com a mão livre pego o ferrolho e enfio na sua boca. Ele faz menção de o retirar. Eu quebro sua mão. Ele chora sangue. Um milagre! Eu volto para a sala e pego o facão. Com golpes frenéticos arranco seus braços, ele ainda se contorce. Levanto uma de suas pernas e sinto o fedor de mijo e merda.
_Você se lembra de Ana? – e enfio o facão em suas virilhas até acertar o osso. Giro a lâmina forçando o desgraçado a se contorcer ainda mais. Já não ligo para seus gemidos. Os vizinhos devem estar pensando que ele copula com as rameiras que ele paga por diversão. Elas nunca voltam a sair com ele, exceto quando obrigadas pelos seus patrões. Como ninguém ao redor se pronuncia me solto um pouco mais. O porco sangra sem parar, logo ele morrerá. Jogo água no desgraçado e ele parece recobrar os sentidos. Arrependi-me de lhe tirar a língua. Queria ouvir ele dizer o meu nome antes de morrer. Ele vomita sangue e água. Pulmões perfurados, costelas partidas. É o fim. Dizem que não se chuta cachorro morto, então pelo menos vou chutá-lo até ele morrer.
_Um! Dois! Três! – seus dentes voam.
Ele já era. Não tem mais graça. Levanto sua cabeça e enterro o facão em sua boca. Ele dá espasmos, me suja com seu sangue nojento. Deve ter engolido o ferrolho. Animal imundo!
Eu me lavo e limpo também a peixeira. Pulo o muro e parto em direção à casa de Ana. Demora pouco. Silas é quem me recebe.
_O que faz aqui tão tarde?
_Vim ver a Ana. Lembra-se do que lhe falei? Vou leva-la embora daqui.
_Para aquele cortiço? Onde tudo aconteceu? Saímos de lá para tentar esquecer.
_Seus pais estão acordados?
_Sim. Eu falei para eles dos seus planos. Minha mãe chorou. Disse que você tem um bom coração.
Eu entrei na casa e os pais dele estavam na sala. Como eles já sabiam o que vim fazer ali, só pedi a permissão para levar Ana comigo e eles a chamaram. Ela consentiu que queria isso também. O pai dela disse para ir nessa mesma noite.
_Já era tempo dela ir embora. - disse o pai virando o rosto – Ela só me trouxe vergonha.
Percebi que muitos assassinos são justificados pelas vítimas. Aquele homem me deu motivo para continuar matando. Mas não hoje.
_Não pegue nada! Vamos embora. – falei com repulsa, olhando para aqueles hipócritas que não fizeram o que deveriam.
Era muito tarde. Nós caminhávamos devagar, contemplando a noite. Fomos pelo caminho mais longo. Eu sabia do terror que ela passava naquela casa, sendo acusada por algo que ela não provocou. Ouço as palavras dos que disseram “você tem um bom coração” – tolos! Eu não tenho coração.
_O porco sofreu? – perguntou ela.
_Fiz o possível para ele desejar estar no inferno. No fim das contas tenho certeza que ele pagou o preço.
_Quero que me conte tudo. Cada detalhe.
Eu sabia que havia encontrado uma parceira, um álibi. Eu continuaria a fazer o que comecei. E tenho alguém tão sem coração quanto eu.



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