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quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O Triste Fim de Um Sonhador

Era uma vez um homem que amou loucamente uma mulher. Ele se chamava Edgar e ela, Hélen. Ele tinha uma virtude que também era o seu defeito: Era sonhador em demasia. De tão Dom Quixote que era não percebeu quando tudo que lhe era importante se afastou de seu redor. Inclusive sua amada. Aliás, foi ele quem dela se afastou. Os seus sonhos, não raro, tornavam-se devaneios, e suas fantasias de vez em quando traziam causas e efeitos para o mundo real. Hélen, diferente do pobre Edgar, era alguém com os pés no solo firme. Não quer dizer, porém, que ela não sonhasse. Tinha, sim, sonhos. Mas nunca colocara a carruagem à frente dos cavalos. Era cheia de vida, animada, articulada e precisa. Inclusive era de admirar como poderia ela amar um sujeito que vivia quase sempre fora da realidade. Era mesmo de se esperar que tudo tivesse um fim.
Edgar, como eu já disse, vivia em um mundo à parte, só seu. Estava sempre com os miolos cheios de realidades paralelas, batalha entre Anjos, Demônios e Deuses e tudo que parecesse sobrenatural. Era fácil o flagrar com algum livro que se referisse aos sonhos, ou aos Céus, ou até mesmo ao Inferno. Adorava particularmente o proibido, o irreal, o profano. E parecia acreditar mesmo naquilo que lia. Além de estar sempre falando, segundo ele, com Deus, com seus anjos e, às vezes, com Demônios. Porém, quando estes estavam ocupados demais, falava consigo mesmo. Certamente seria queimado vivo tivesse nascido alguns séculos antes.
A questão é: Porque Hélen o amava? Talvez ela sentisse uma necessidade de ser menos real ou previsível. Talvez ela não se agradasse de ser sempre um modelo de convencionalismo social, por isso se apegou a alguém tão desapegado a realidade. Já o que prendia Edgar a sua amada era fácil de dizer: Hélen era a ilusão palpável, o sonho real que podia tocar, abraçar e ainda assim continuar sonhando.
Todavia, sonhador como ele era, tinha tendências ao exagero, não só em seus pensamentos, mas também em suas deduções. começou a se perguntar o que ele representava, de fato, para Hélen. Percebeu, enfim, que nada tinha a oferecer-lhe. Apesar de seus sentimentos sinceros tinha certeza de que não a merecia. Chegou até mesmo a conclusão de que ela jamais o amou, mas sim que o estimava. Que ela o considerava frágil, e por isso precisava de proteção (e ele sabia mesmo que precisava). Não seria justo, pensava ele, mantê-la presa a um ser tão dormente e fútil. Não ela. Alguém tão forte e capaz. Alguém que merece mais. Alguém que é mais!
Várias vezes esse sonhador sentira o coração sumir de seu peito, mas dessa vez ele foi tirado à força por um buraco em suas costelas. A pressão, a falta de ar, o choro incontrolável e a suposta verdade: "Ela nunca me amou"! - Melhor assim, pois ela sofreria menos com o que estaria por vir. A inevitável separação.
Assim foi feito. De Edgar saíram muitas palavras, e nenhuma verdade. E de ambos poucos olhares, mas muita dor. A noite quase não chegou àquela tarde. E a mesma noite permaneceu por muito tempo. Se é que ela se foi.
Existe algo que eu não contei sobre Hélen: O seu orgulho. Esse sempre foi um traço marcante de sua personalidade. Um traço que se ausentou durante dias, ou mesmo meses, depois que foi abandonada (como se abandona alguém como Hélen?). Ela realmente amava Edgar. Ela sempre procurava saber notícias de seu amado. Muitas foram as vezes em que o telefonou pedindo-lhe que voltasse para seus braços, que ela só pertencia a ele e que o amava. Não foram poucas as vezes que ela fez isso depois de embriagar-se... para vencer o orgulho, talvez. Ou pelo próprio orgulho, e ter em que colocar a culpa por tal ação. Eu não sei e, sinceramente, não importa. O que importa é que ela o procurou, desesperadamente até. Porém nenhuma mudança na decisão de Edgar foi notada. Pelo menos não superficialmente. Pois a verdade é que todas as noites ele lutava consigo mesmo. Tentava se convencer que escolhera o melhor, não para ele, mas sim para ela. "No fim das contas ela ficará satisfeita, ou, até mesmo, feliz ao perceber o porquê de minha atitude", dizia ele.
Todavia, Edgar possuía uma alma, que sofria. Havia perdido sua âncora e por isso se ausentava ainda mais do mundo real. Ele estava perdido. Vagando num completo vazio da existência. Carregando seu próprio vazio no espírito. Ele abraça sua dor e aceita o destino que impôs a si mesmo. Às vezes se consolava recitando parte de um antigo poema:

"Eu tinha um pássaro nas mãos
Que não me cabia possuir.
Dedos eram grades, uma prisão,
Que o impediam de partir.

Eu, dependente, o prendia.
Ele, feito tolo, aceitava.
Mas apesar da alegria
Meu coração se envergonhava."¹

O contato que Edgar mantinha com sua amada, ficava cada vez mais imperceptível. Ele não escondia sua "felicidade" todas as vezes que a encontrava. Sim, ele fingia estar bem. No entanto, cada vez menos se convencia das razões que o levou a abandonar sua própria vida. Ele não sabia mais o que fazer, que caminho deveria tomar. Viu-se mais uma vez perdido em suas cruéis dúvidas.
Então ele percebeu o quanto Hélem havia mudado, em vários aspectos. Ela se tornou tudo o que se esperava dela. Ela parecia ter encontrado todas as respostas do mundo. Com a ausência dele ela pôde se encontrar e evoluir, como ele havia previsto. Ela realmente não precisava dele. Em parte ele ficou feliz, e se perguntou se foi mesmo necessário a distância para que tudo isto acontecesse. Ele, nesse momento, olhou-se interiormente... e se assustou. Enquanto Hélen progredia espiritual e mentalmente, ele continuava o mesmo. O mesmo de sempre!
No último encontro que tiveram, conversaram durante toda a noite, e na voz dela, nas suas palavras, é como se ela dissesse que havia entendido as ações de Edgar. Que ela sabia o porquê de ter a abandonado. E parecia dizer: "Você estava certo". Edgar percebeu que nunca mais haveria lugar para ele em sua vida. "Valeu a pena tudo o que eu fiz?" - perguntava-se ele. E ao olhar para Hélen, para o seu sorriso, para o seu fantástico mundo real, ele teve certeza absoluta que sim. E completou seu pensamento: "Agora não sou mais necessário em lugar algum".
Hélen nunca mais veria seu amado com vida. Ela chorou muito por ele, e chorou muito mais quando soube o que Edgar escreveu em seu diário pouco antes de cortar seus pulsos:
"Ao que parece, eu salvei sua vida, Hélen. E não me importo se, para fazer isso, eu perdi a minha".





¹ http://amirapaltu.blogspot.com/2015/09/liberdade-imposta.html

2 comentários:

  1. Tal como algumas estórias de amor, esta, de semelhante modo, não termina de maneira feliz. Dizem que o amor tanto pode trazer felicidade quanto dor. Infelizmente, devo concordar. E tu expressas isso muito bem. Com o texto fluente e sucinto consegue despertar o interesse até o final.

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  2. Obrigado, meu amigo. Infelizmente, como você mencionou, a vida nem sempre nos dá finais felizes. Abraço!

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