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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Precipício

Ela estava sentada sobre as grades do viaduto. Os olhos vazios e o cabelo vermelho. Mas o que chamava a atenção era os hematomas e arranhões, sobre os ombros nus. Marcas de escoriações e feridas ainda abertas por toda a extensão do braço esguio. Enquanto eu passava, ela se mantinha imóvel, olhos fixos no precipício. "Ela vai pular", pensei. E segui sem olhar para trás.
Já fora do viaduto, parei no ponto de ônibus. Ainda conseguia ver a moça desde a altura dos ombros até a cabeça, seus cabelos balançando sob o vento da tarde. Pensei em voltar e perguntar se estava tudo bem, enquanto uma voz na minha cabeça dizia: Não é da sua conta - e realmente não era. Percebi um senhor parando ao lado dela. Acho que ele se preocupou com a moça, naquela situação, mas também logo se foi. Ele andava devagar, olhando para trás, certamente mais preocupado do que eu. Outras pessoas passam e se mostram mais indiferentes. Nesse momento percebi que perdi o ônibus. Ele se afastava, lotado, também indiferente a mim.
Súbito, o vento pára. O meu corpo congela e se aquece ao mesmo tempo. As mãos suam e vejo um pássaro imóvel no céu, prenunciando o mal. Olhei para o viaduto e vejo a garota deslizando no ar, os braços erguidos e sumindo atrás da murada de concreto. O tempo corre lento. Penso em correr e me pôr sob sua queda. Penso no senhor que se foi e no pássaro imóvel. Eu me pergunto o que estou fazendo e tudo parecia um sonho estranho e irreal. Volto a mim com o som de freios e batida de carros. A garota já está no chão. A via quase deserta agora era um caos de carros, que se engarrafavam, e pessoas se aglomerando em volta do corpo.
Eu me aproximo e ganho passagem espremendo-me entre os curiosos. Quando a vejo, sinto outro calafrio. Os cabelos cobriam o rosto, de onde o sangue escorria pelo chão. Todo o corpo amolgado. Fraturas expostas e membros torcidos, ao avesso. Sangue, sangue e mais sangue. A vida se esvaindo rumo ao esgoto.

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